segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Netto e o Domador de Cavalos

Época das Carroças

Não existe data melhor para lançar um filme como Netto e o Domador de Cavalos do que o fim de semana grudado no feriado de 20 de setembro, dia em que o Rio Grande do Sul celebra a Revolução Farroupilha. Perfeito pensamento dos distribuidores, mas que infelizmente não se reflete no longa-metragem, dirigido por Tabajara Ruas, uma grande sucessão de cenas pouco inspiradas, personagens mal aproveitados e nenhum sinal da qualidade narrativa que seu antecessor, Netto Perde Sua Alma possuía.

Sejamos francos. Netto Perde Sua Alma não era um excelente filme, mas tinha muitas qualidades que garantiam uma conferida mais de perto. Werner Schünemann (de Nosso Lar) foi um Netto perfeito, performance que lhe abriu diversas portas. Além do fato da narrativa em flashback trazer momentos interessantes da luta de Netto pelos seus ideais. É decepcionante, portanto, assistir a Netto e o Domador de Cavalos, e descobrir que o personagem é um mero coadjuvante em seu próprio filme. Nem Índio Torres, vivido por Tarcísio Filho (de Cerro do Jarau), o domador de cavalos do título serve como personagem principal. Ele é o narrador, contando a história da célebre lenda gaúcha O Negrinho do Pastoreio. Ou seja, o verdadeiro protagonista da trama, assinada por Tabajara Ruas, é o Negrinho, interpretado por Evandro Elias.

A presença de Netto, então, parece apenas uma desculpa esfarrapada para uma ligação com o filme de 2001, dirigido por Beto Souza e Tabajara Ruas. O personagem não sofre uma grande transformação, não apresenta nenhuma informação que já não tínhamos do filme anterior e está ali, única e exclusivamente, para ser a ponte de ligação entre as duas produções. Não bastasse isso, outro ponto que incomoda é a reutilização de diversos atores do filme anterior em papéis diferentes. Isso arruína totalmente a continuidade da trama (que é vista, por Ruas, como uma trilogia ainda inacabada), como se no Rio Grande do Sul não existissem atores suficientes que pudessem assumir papéis nesta seqüência. Portanto, nomes como Nelson Diniz, Sirmar Antunes, João França e Miguel Ramos retornam na continuação, em personagens que nada tem a ver com o primeiro filme.

Isso, no entanto, seria perdoável caso Netto e o Domador de Cavalos tivesse uma história que engajasse o espectador. Mas a trama demora a engrenar, ficando presa tal e qual o Índio Torres durante metade da história.

Tabajara Ruas pega a tradicional lenda do Negrinho e a reconta durante o início da Revolução Farroupilha, adicionando Netto à mistura. O então coronel Antônio de Souza Netto (Schunemann) precisa de um domador de cavalos e descobre que o melhor da região, Índio Torres (Filho) está sob custódia. Netto, então, reúne um grupo para soltar o índio e dar fim àquela situação. Neste ínterim, conhecemos um Barão (Julio Conte, de A Paixão de Jacobina), senhor de terras e, obviamente, escravista, que utiliza a violência para ser respeitado. Depois de ter ordenado 30 chibatadas no seu escravo Negrinho, terrivelmente machucado após o castigo, ainda o mandou arrebanhar os cavalos de sua fazenda, durante a madrugada. Caso não conseguisse, um castigo mortal recairia sobre o pobre escravo.

Tarcísio Filho fica acorrentado durante 50 minutos de projeção, com a trama totalmente parada durante este tempo. Depois de sua soltura, o personagem tem uma luta de espada (bem coreografada e interessante, é verdade) e nada além disso. Todo o tempo que o acompanhamos em seu cativeiro não parece ser retribuído. O caso de Netto, no entanto, é ainda pior. Responsável pelos planos de soltura do Índio, esta é a única ação que o personagem ganha durante todo o filme. Também o vemos tentando engajar seus futuros lanceiros negros na luta, prometendo o fim da escravidão quando a guerra for vencida pelos gaúchos. Mesmo sendo interessante observar este início de caminhada para Netto e seus companheiros, esta idéia já havia sido apresentada e concluída em Netto Perde Sua Alma, transformando a cena em apenas uma curiosidade.

Se a idéia de Tabajara Ruas era incomodar o espectador com cenas fortes de tortura, o cineasta consegue seu desejo. As cenas que apresentam as chibatadas em Negrinho são longas, deixando o público compadecido pelo seu sofrimento, sentindo junto do escravo a dor por aqueles minutos que parecem nunca passar. Apesar de pensar que Ruas exagera na dose, mantendo as cenas mais longas que o necessário, acredito que este era o verdadeiro propósito do cineasta, deixar seu público realmente incomodado com a violência apresentada na tela. Neste quesito, a intenção consegue ser alcançada.

Dito isso, Netto e o Domador de Cavalos parece uma continuação realizada para a televisão, de um filme que deu certo anteriormente no cinema. Não fossem algumas belas tomadas, uma direção de arte feita com esmero e a música sempre interessante de Vitor Ramil, este novo longa-metragem de Tabajara Ruas seria terrivelmente fraco. Nem a performance acertada de Werner Schunemann, novamente na pele de Netto, mas com pouquíssimo a fazer, consegue salvar o filme. No feriado Farroupilha, reveja Netto Perde Sua Alma que a satisfação será consideravelmente maior.

Netto e o Domador de Cavalos
Dir.: Tabajara Ruas
Com Werner Schunemann, Tarcísio Filho, Evandro Elias, Julio Conte, Sirmar Antunes, Nelson Diniz, Zé Adão Barbosa
Cotação Paradoxo: Vale 30% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Netto e o Domador de Cavalos:

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