segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Uma Noite em 67

Viola para Cantar

“Alegria, Alegria”, “Roda Viva”, “Domingo no Parque”, “Ponteio”. Hoje, estas músicas fazem parte do cânone da Música Popular Brasileira, reverenciadas como grandes clássicos do cancioneiro nacional. Mas em 1967, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Edu Lobo, respectivamente, intérpretes e autores das músicas acima, estavam apenas em início de carreira, com todo um chão pela frente, e acabaram se enfrentando nos populares festivais de música de então.

Uma Noite em 67, documentário assinado pelo publicitário Renato Terra e pelo jornalista Ricardo Calil, retrata a final do 3º Festival de Música Popular da Record, que ocorreu em outubro de 1967. Entre os momentos marcantes desta edição do concurso, o músico Sérgio Ricardo e sua histórica perda de paciência para com o público, que o vaiava ao tentar cantar sua composição “Beto Bom de Bola”. A consagração de Elis Regina como a melhor intérprete, com a canção “O Cantador”. E, claro, o polêmico uso de guitarras elétricas por parte de Caetano Veloso e Gilberto Gil, momentos antes da eclosão da Tropicália.

Excetuando-se Elis Regina, que inexplicavelmente não é citada no documentário e apenas aparece como trilha sonora para os créditos finais, tudo o mais está presente em Uma Noite em 67. Terra e Calil firmaram uma parceria com a Rede Record, detentora das imagens do festival, e tiveram acesso irrestrito ao rico material capturado naquele show histórico. Portanto, o filme da dupla já inicia com o pé direito. Não há como errar a mão quando se tem a chance de contar a história das primeiras exibições públicas de canções que se tornariam praticamente um patrimônio nacional.

Além de privilegiarem as imagens de arquivo, que surpreendem ao mostrar um público bastante participativo e até ofensivo em alguns momentos, Renato Terra e Ricardo Calil procuraram os artistas que protagonizaram o Festival da Record para depoimentos inéditos sobre aquela noite de 67. Portanto, assistimos ao controverso Sérgio Ricardo relembrando o momento em que, irado, quebrara seu violão e atirara em cima do público. Sem arrependimentos, o músico apenas pondera que se fosse hoje, sua atitude não seria a mesma. “Até porque eu toco piano”, brincou.

Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e até Roberto Carlos dão depoimentos sobre aquele festival. O rei, inclusive, fora vaiado naquele dia – uma das poucas vezes que isso deve ter acontecido, certamente. O que parece bastante claro em todas as entrevistas é que a saudade daquele festival está muito mais viva no público do que nos músicos que nele participaram. Qualquer um que seja apreciador de música brasileira entende que aquele festival foi paradigmático. Mas os protagonistas da história apenas lembram-se dele como um evento realmente bombástico (em relação à platéia, ensandecida) e como apenas um trampolim para seus trabalhos.

Chico Buarque comenta, por exemplo, que só relembra do festival porque está sendo entrevistado. De outra forma, não costuma pensar naquele evento. Caetano Veloso parece ser ainda menos saudoso, visto que relembra sua “Alegria, Alegria” como uma canção boa, mas não sua preferida, ou que melhor represente seu trabalho. No entanto, o público ainda pede a música, que é executada em alguns shows do baiano. Já Gilberto Gil, como de praxe, divaga.

A estrutura de Uma Noite em 67 é bastante trivial e não apresenta nenhuma inovação, mas é coerente com o material apresentado, fluindo de forma prazerosa. A narrativa é costurada com as cinco músicas melhores colocadas naquele festival, com entrevistas da época e depoimentos inéditos. Faltou explicar melhor como funcionava o Festival, já que somos apenas apresentados à final do programa. Também poderiam dar algum espaço, mesmo que pequeno e apenas por curiosidade, para artistas que ficaram esquecidos com o tempo. E em época de ebulição política, em plena Ditadura Militar, o assunto é apenas tangenciado. Como o filme é curto, com 85 minutos, era possível dar uma esticadinha sem prejuízos e incluir um pouco mais de conteúdo.

Se faltam alguns pequenos pontos, não faltam momentos de pura magia musical. Caetano Veloso cantando “Alegria, Alegria” para uma platéia instável e revertendo as vaias em aplausos é um dos trechos inesquecíveis do Festival e, agora, do filme. Assim como a execução histórica de “Domingo no Parque”, trazendo Gil e os Mutantes em uma performance condizente com a genial letra da canção. E se Chico Buarque emociona ao defender sua “Roda Viva” ao lado do MPB-4, com uma canção beirando a perfeição, Edu Lobo e Marília Medalha estão igualmente cativantes com sua performance divertida e visivelmente nervosa de “Ponteio”.

Uma Noite em 67 é recomendado para todos que gostam de boa música nacional e não necessariamente para as pessoas que viveram a época e gostariam de relembrar os belíssimos festivais de música. Elas, claro, irão se emocionar com as imagens da época. Mas o documentário consegue tocar até mesmo os mais jovens, que se não conhecem, passam a entender o poder que nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Roberto Carlos e Gilberto Gil tem até hoje no universo da MPB. E, provavelmente sairão da sessão cantando algum trecho de sua canção preferida.

Uma Noite em 67
Dir.: Renato Terra e Ricardo Calil
Cotação Paradoxo: Vale 90% do ingresso

Confira o trailer de Uma Noite em 67 logo abaixo:

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