quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Um Doce Olhar

Mel

Quem entra meio sem querer em uma sessão de Um Doce Olhar, filme turco que estreou sem muito barulho nas salas de cinema, pode se surpreender com a forma intimista que o cineasta Semih Kaplanoglu comanda sua história. Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim deste ano e capítulo final de uma trilogia inédita no Brasil, Um Doce Olhar é um passeio pelos olhos ingênuos de Yusuf, um menino calado, imaginativo, com uma forte ligação com o pai.

A idéia da trilogia, segundo Kaplanoglu, iniciou no momento em que escrevia o roteiro de Süt (leite, em português), história que acompanhava o jovem adulto Yusuf. Neste momento, o cineasta pensou no futuro do personagem – que seria contado no primeiro filme da trilogia, Yumurta (ovo) – e no seu passado, que fecharia a trilogia, Bal (mel). No Brasil, a referência ao néctar das abelhas foi trocado por um título que remete ao protagonista infantil, enquanto que os dois outros filmes da trilogia seguem inéditos.

Na trama, conhecemos o pai de Yussuf (Bora Altas), Yakup (Erdal Besikçioglu), um apicultor que se vê obrigado a procurar outro local para cultivar colméias, visto que as suas abelhas, inexplicavelmente, estão desaparecendo. Yakup é o herói de Yussuf, única pessoa com a qual o menino consegue se relacionar, já que não possui uma relação afetiva com a mãe, Zehra (Tülin Özen). O garoto também tem problemas na escola, não conseguindo ler as tarefas em voz alta, virando motivo de chacota dos colegas. Seu grande sonho é receber uma espécie de “estrelinha de bom aluno”, um botom vermelho que o professor entrega para os estudantes mais aplicados. Este sonho de Yusuf logo parece pouco importante quando Yakup não volta para a casa, preocupando o menino e sua mãe.

Kaplanoglu aposta nos efeitos sonoros para transportar o espectador para a história de Yusuf. É possível ouvir cada mínimo elemento em cena com grande detalhe, fato que até incomodou alguns espectadores (houve gente que saiu reclamando do volume alto da sessão, como se fosse culpa da projeção). Esta maximização dos efeitos sonoros e a ausência de música incidental dão uma maior sensação de silêncio. Pode parecer paradoxal, mas não é. Ao ouvirmos em volume alto o barulho das panelas, dos pratos, da maçã cortada, é possível perceber de forma ainda mais destacada a falta de comunicação verbal. Quando na floresta, os sons dos animais, das árvores e do vento dão características soturnas àquele ambiente ainda misterioso para Yusuf.

Além desta preocupação sonora, o cineasta turco capricha em tomadas bucólicas, mostrando o verde, o barro e a pasmaceira da vida no campo. Como não poderia deixar de ser, o ritmo do filme é lento, encaixando com o estilo de vida mostrado no longa-metragem. Existe ainda uma questão onírica no filme, com os sonhos de Yusuf se confundindo com sua realidade, ou vice-versa.

Mas o grande tema de Um Doce Olhar é, realmente, a ótica infantil sobre temas duros como a perda, o ciúme e a incomunicabilidade. O filme problematiza as cicatrizes por que passa um menino que, em tenra idade, vê seu pai desaparecer de seu convívio. Esta ausência, no entanto, acaba abrindo uma pequena fresta na relação entre Yusuf e sua mãe. Kaplanoglu é hábil em não dar de mão beijada esta conexão entre os dois. Fosse uma produção hollywoodiana, Yusuf provavelmente cairia nos braços da mãe, chorando, criando outro tipo de relação com ela. Ou seja, mudando completamente de atitude de uma hora para outra. Felizmente, isso não acontece nesta produção turca.

Um Doce Olhar não ganharia metade de seus elogios caso não tivesse um ator mirim fantástico interpretando Yusuf. Bora Altas tem uma incrível capacidade de interpretar apenas com os olhos, característica preponderante para alguém que dá vida a um personagem calado como Yusuf. É possível ler angústia, tristeza, animosidade, carinho e ansiedade nos olhos de Altas, em uma formidável interpretação. Como a trilogia foi filmada de trás para frente, não será possível ver o garotinho continuar no papel em outras histórias. Mas espera-se que, com o Urso de Ouro vencido por este longa-metragem, as outras duas produções da trilogia sejam finalmente lançadas no Brasil. Dependendo de como forem lançados no país, os cinéfilos brasileiros poderão acompanhar a história de Yusuf na ordem cronológica, diferente do pensado pelo diretor Semih Kaplanoglu. Antes isso do que nada.

Um Doce Olhar (Bal)
Dir.: Semih Kaplanoglu
Com Bora Altas, Erdal Besikçioglu, Tülin Özen
Cotação Paradoxo: Vale 89% do ingresso

Confira o trailer de Um Doce Olhar logo abaixo:

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