sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Salt

Montanha Russa

Quem é Salt? A pergunta estampada nos cartazes de divulgação do mais recente filme estrelado por Angelina Jolie é tão intrigante quanto o porquê da latinha de tal cerveja ser branca, amarela ou azul calcinha. Calcinha, aliás, é algo que, curiosamente, a agente interpretada pela senhora Brad Pitt não utiliza durante suas aventuras, visto que é a única peça do vestuário que ela atina em usar para vedar uma câmera que a atrapalhava. Sabendo que o roteiro de Salt fora escrito como um veículo de ação para Tom Cruise estrelar, me pergunto se existia uma cena na qual o espião retirava sua cueca para o mesmo fim. Difícil dizer. Se sim, felizmente, Jolie pegou o papel. Mas, divago.

Respondendo objetivamente à pergunta do cartaz: Salt é um mistério... apenas para quem nunca viu a um filme de ação. Todas as reviravoltas da trama podem ser antecipadas pelo espectador horas antes de acontecerem. O grande erro dos produtores de Salt foi tentar criar uma mistura genérica e feminina de Jason Bourne e Ethan Hunt. Do primeiro, Angelina Jolie herda o pensamento rápido e as poucas palavras. A atriz praticamente entra muda e sai calada do longa-metragem. Do segundo, Salt pega emprestadas suas cenas de ação. São muito bem executadas, mas sempre exageradas demais. Um verdadeiro Missão Impossível. Não é a toa que Tom Cruise desistiu do filme, já que seria um perfeito mais do mesmo.

Na trama, assinada por Kurt Wimmer (de Código de Conduta), Evelyn Salt é uma agente da CIA que tem sua honestidade confrontada quando um agente russo, Vassily Orlov (Daniel Olbrychski, de Persona non Grata), a acusa de ser uma espiã russa infiltrada. Seu parceiro de trabalho, Ted Winter (Liev Schreiber, de Aconteceu em Woodstock), não acredita no fato, mas o agente Peabody (Chiwetel Ejiofor, de 2012), decide ir a fundo na historia, detendo a acusada. Clamando por justiça e temendo pela segurança de seu marido Mike (August Diehl, de Bastardos Inglórios), Salt escapa e procura provar sua inocência. Ou isso, ou a agente da CIA é realmente uma espiã russa que pretende dar cabo de sua missão custe o que custar.

Não é preciso ser muito esperto para adivinhar o que vem a seguir. Ao menos, as cenas de ação são realmente boas e o diretor Phillip Noyce (que já assinou filmes de outro agente, Jack Ryan, em Perigo Real e Imediato e Jogos Patrióticos) mostra que não perdeu a mão. Não seria nada mal acompanhar os malabarismos de Angelina Jolie como Salt se o roteiro não fosse tão manjado e mal estruturado.

Os buracos da trama podem gerar spoilers, portanto pule para o próximo parágrafo caso não tenha conferido Salt. Primeiro: o roteirista Kurt Wimmer quer que o espectador acredite que uma acusação feita por um desertor russo faça com que toda a CIA desconfie de um agente que trabalha há anos na agência. Segundo: quer que suspeitemos se Jolie é ou não uma infiltrada russa, quando sabemos que ela é protagonista de um filme norte-americano e que dificilmente uma reviravolta dessas aconteceria. A Guerra Fria acabou há anos, mas não é hoje que veremos isso acontecer no cinema. Terceiro: com poucos personagens na trama, fica difícil criar uma surpresa de cair o queixo quando um deles se torna o vilão da história. Mais manjada que esta virada de roteiro, só a cena em que Angelina Jolie se disfarça com peruca, lente de contato e dentadura para não ser reconhecida. Aliás, com o cabelão solto que Salt ostenta no início do filme, fica difícil acreditar que ela consegue lutar, pular e fazer o diabo que ela faz neste longa-metragem.

Não é desta vez que Angelina Jolie conseguiu encarar um personagem de ação que realmente consiga segurar um filme. E a culpa nem é exclusivamente da atriz. Em Lara Croft: Tomb Raider, Jolie era a intérprete perfeita para a voluptuosa personagem do game. Infelizmente, com roteiro e diretores de segunda, a franquia acabou morrendo com apenas dois filmes. No fraco Sr. e Sra Smith e no bacana O Procurado, Jolie divide a tela durante a ação e consegue um resultado superior. Em Salt, a atriz convence nas cenas de ação, mas não consegue um engajamento com o espectador. Isso porque o clima de pretenso mistério sobre a sua figura acaba fechando qualquer meio de ligação entre personagem e público.

Do elenco do longa, os competentes Liev Schreiber e Chiwetel Ejiofor se salvam por fazerem o feijão com arroz de forma honesta. Com personagens melhores, a tarefa seria bem mais fácil para ambos. Agora é esperar que na certeira continuação de Salt, Wimmer consiga elaborar um roteiro mais interessante e menos derivativo. Já saberemos quem Salt não é. Talvez em um próximo, poderemos ter a honra de saber alguma coisa mais relevante que isso.

Salt
Dir.: Phillip Noyce
Com Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor, Daniel Olbrychski, August Diehl
Cotação Paradoxo: Vale 48% do ingresso

Confira o trailer de Salt logo abaixo:

2 comentários:

ShyMoon disse...

Ok Rodrigo. Concordo. Roteiro manjado e com furos, além das cenas de ação exageradas, mas confesso que me diverti assistindo.

Vai ver que é a identificação com a personagem fodona feminina!

:-)

Rodrigo de Oliveira disse...

Talvez tu tenha se divertido com Salt da mesma forma que me diverti com os Mercenários. Abraço!