Uma ficção científica de ação que ocorre na arquitetura da mente. Era apenas essa enigmática idéia que o cineasta Christopher Nolan (de Batman – O Cavaleiro das Trevas) revelava sobre seu próximo e igualmente enigmático novo filme, A Origem. Muitos poderiam pensar que o diretor estava sendo zeloso ao extremo sobre o conteúdo da história. Mas não é o caso. Nolan tinha em mente, e de forma muito correta, que quanto menos o espectador souber sobre a trama de A Origem, melhor será a experiência. Por isso, a recomendação aqui é a mesma: assista ao filme antes, sem muitas informações anteriores, e leia a crítica depois. Caso você já tenha percorrido os labirintos da trama, assinada pelo próprio diretor, ou não se importa em saber mais sobre os sonhos que permeiam esta produção, prossiga sem medo.
Em uma realidade onde é possível entrar em sonhos alheios, Dom Cobb (Leonardo DiCaprio, de Ilha do Medo) é um exímio ladrão de informações. Junto de seu colega Arthur (Joseph Gordon-Levitt, de 500 Dias com Ela), Cobb é contratado para tarefas que requerem sua aptidão em encontrar e roubar os segredos mais ocultos da mente humana. Mas nenhum trabalho é tão complicado quanto o contrário. Em vez de roubar, plantar uma idéia no subconsciente. E esse é o objetivo de Cobb e sua equipe: entrar na mente do herdeiro magnata Robert Fischer (Cillian Murphy, de Sunshine) a mando do igualmente abastado Saito (Ken Watanabe, de Cartas para Iwo Jima). Mas se é tão complicado, porque fazê-lo? O único desejo de Cobb é retornar para seus filhos, que moram nos Estados Unidos. Impedido de pisar em solo norte-americano devido ao seu passado misterioso, o ladrão de sonhos aceita este último trabalho em troca da oportunidade de retornar para casa. Com uma equipe formada pelo sempre presente Arthur, o mandante do trabalho, Saito, o astuto Eames (Tom Hardy, de RocknRolla), o químico Yusuf (Dileep Rao, de Avatar) e a estudante Ariadne (Ellen Page, de Juno), Cobb correrá o risco deste último trabalho, mesmo sabendo que sua esposa, Mal (Marion Cotillard, de Piaf), continua a percorrer seu subconsciente.
Christopher Nolan é conhecido por conceber narrativas pouco usuais. Em Amnésia (2000), o cineasta contou a história de trás para frente, para que o espectador tivesse a sensação aproximada da condição do protagonista, impossibilitado de criar novas memórias. Em Batman Begins (2005), o passado e o presente se encontravam na primeira metade do filme, mostrando o antes e depois de Bruce Wayne de forma paralela. Já em O Grande Truque (2006), a costura da narrativa era ainda menos ortodoxa, com um grande número de flashbacks invadindo a trama corrente (contendo, inclusive, um nada usual flashback dentro de um flashback).
Agora, em A Origem, Nolan chega ao que podemos pensar ser o ápice de suas experimentações em como contar uma história. A estrutura de seu novo longa-metragem, como não poderia deixar de ser, lembra bastante a de um sonho, cheia de elipses. Com diversos acontecimentos rolando ao mesmo tempo – com o intrincando conceito do sonho dentro do sonho – o espectador precisa ficar atento para pescar todas as informações dadas pelo roteiro. E não são poucas. Christopher Nolan faz questão de explicar as regras desse universo em meio a diálogos expositivos, mas nunca óbvios. Ariadne, a arquiteta dos sonhos, serve como a representante dos espectadores na tela, fazendo as perguntas pertinentes e recebendo as bem-vindas explicações necessárias. É salutar assistir a um filme com roteiro extremamente inteligente e que não subestima seu público. Isso e o fato de as reviravoltas da história estarem longe dos clichês dos usuais thrillers é motivo de comemoração para cinéfilos. Em dado momento, esperava que algum personagem se mostrasse um vilão em potencial, um infiltrado ou qualquer coisa do tipo como em centenas de outros filmes. Felizmente, Christopher Nolan nos presenteia com um roteiro bastante original, cheio de momentos inspirados e que planta a vontade no espectador de assistir novamente. Seja para confirmar algumas informações, seja para se divertir uma segunda vez com as aventuras de Dom Cobb e sua equipe.
Aventura, aliás, é uma palavra correta para A Origem. São muitas as cenas de ação. Algumas convencionais, mas muito bem executadas, outras completamente inovadoras – como o caso da gravidade zero ou do mundo incoerente criado pela mente de Ariadne. Estas duas cenas, em particular, com o perdão do clichê, são de arrepiar. Mesmo tendo sido utilizadas em trailers e comerciais, o efeito de assistir a imagens tão únicas na tela grande é de deixar qualquer um boquiaberto. Imagine em Imax então?
Com um visual caprichado e roteiro igualmente bem lapidado, Christopher Nolan precisava apenas de um elenco à altura para dar conta do recado. Ainda que não tenhamos uma atuação rasgadamente destacada como a de Heath Ledger em Batman – O Cavaleiro das Trevas, o grupo de A Origem é incrivelmente forte. Ken Watanabe, Cillian Murphy e Michael Caine já haviam trabalhado anteriormente com Nolan e são presenças interessantes – mesmo que nem todos ganhem tempo suficiente. O novato em ascensão Tom Hardy (que será o novo Max Rockatansky em Mad Max: Fury Road) apresenta uma performance cativante como o prático Eames. A jovem Ellen Page abandona os trejeitos de Juno e tem uma bela e contida atuação, nos fazendo esquecer a adolescente grávida do filme de Jason Reitman. Joseph Gordon-Levitt começa a se destacar no cinema depois de uma carreira longa na televisão. E Marion Cotillard, com sua beleza e talento usuais, tem uma intensa performance como Mal.
E o protagonista? Leonardo DiCaprio encabeça o longa-metragem e convence como um inteligente e traumatizado indivíduo, que vive se escondendo de uma ameaça em potencial. Dom Cobb é um homem apegado demais ao seu passado e precisa deixá-lo para trás. Suas cicatrizes ainda o machucam e a culpa de um evento irreversível o assombra até hoje. Esta é a jornada do personagem e o espectador consegue se relacionar com o seu drama, apesar de faltar uma pitada de emoção para que tudo ficasse perfeito. É o único quesito questionável em A Origem. Muito cérebro e pouco coração em alguns momentos. Nada que tire do filme suas cinco estrelas, two thumbs up, nota 10, ou qualquer que seja o seu sistema de avaliação.
Certamente, muitos procurarão por críticas e resenhas tentando achar respostas para o final do filme. O próprio Christopher Nolan disse que não se preocupava em ceder isso ao espectador. Cada um entende da forma como quiser aquele último momento, cortado segundos antes de uma possível resposta, deixando todos no escuro – literalmente. É um desfecho arrebatador, que deixará perguntas eternas. E, na verdade, o que menos importa é esta resposta. O interessante e fascinante neste filme é a jornada dos personagens. Da mesma forma que nunca saberemos se Capitu traiu Bentinho, se Deckard era ou não um replicante, a resposta para o que vimos em A Origem ficará na cabeça de cada um. Eu tenho a minha. Espero que você também.
A Origem
Dir.: Christopher Nolan
Com Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Marion Cotillard, Michael Caine, Tom Hardy, Tom Berenger, Dileep Rao, Pete Postlethwaite
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso
Confira o trailer de A Origem logo abaixo:
5 comentários:
Por mais que a Mal seja a personificação da culpa de Dom Cobb, ela é, sim, a antagonista do filme (vilã) enquanto roteiro.
Guilherme,
concordo contigo que ela seja uma antagonista. Não disse que o filme não tinha vilões. Disse que o roteiro não tem personagens que se transformam em vilões como uma reviravolta do roteiro, o que acontece em inúmeros filmes.
Abraço!
Enquando assistia ao final do filme, torci primeiro para ele ver o rosto dos filhos. Logo em seguida comecei a temer o pior: tudo aquilo era um sonho. Confesso que VIBREI na cadeira quando o diretor realizou aquela panorâmica para enquadrar o amuleto. Os segundos foram se tornando horas, a trilha foi aumentando e de repente o preto. Perfeito. A questão não era mais essa. Não interessa saber a resposta para aquela pergunta, pois essa já é outra questão...
Filme brilhante que esperava há muito tempo!
Abração!
Sandro Azevedo
blog24fps.blogspot.com
Vibrei muito quando o diretor fez aquele corte brusco no fim e nos deixou sem saber.
Cara, tua crítica tá perfeita para cinéfilos e para o público comum. A questão é que muitos não percebem (não sei se tu sentiu isso também) algo essencial no filme: o Nolan não inventa um universo próprio, uma fantasia. Os dilemas e até mesmo as afirmações do filme são feitas em cima de muita teoria pesada em Psicologia. Não é inventado. É uma versão live action hard core da mente humana. É realidade na forma mais absurda e... real.
Acho que vale um Oscar, até pra homenagear o Pete Postlethwaite.
Abs,
Matheus Beck
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