terça-feira, 24 de agosto de 2010

O Bem Amado

Sucupira

Que os filmes de Guel Arraes são compostos, basicamente, por atuações exageradas, qualquer pessoa que já assistiu a algum deles sabe. O Auto da Compadecida, Caramuru – A Invenção do Brasil e Lisbela e o Prisioneiro são exemplos do estilo sempre espalhafatoso apresentado pelos atores sob o seu comando. Mesmo assim, ninguém pode negar que estas três obras supracitadas são hilariantes, com histórias muito bem trabalhadas e, em maior ou menor grau, com um espaço cativo no coração do público brasileiro. Algo, no entanto, saiu errado em O Bem Amado. As atuações, em vez de exageradas, estão histéricas. O humor, até então sempre criativo, está calcado basicamente nos neologismos do protagonista, Odorico Paraguaçu. E o ritmo, sempre frenético, não deixa o espectador respirar. Mas os problemas não residem apenas aí. O buraco é muito mais embaixo.

Baseado na obra de Dias Gomes, O Bem Amado tem roteiro escrito por Cláudio Paiva (de A Grande Família – O Filme) e Guel Arraes, uma dupla que teria todas as ferramentas para fazer o público gargalhar. Mas não é o que acontece. Na trama, o pistoleiro Zeca Diabo (José Wilker, de Embarque Imediato) executa o prefeito da cidade de Sucupira, iniciando assim uma disputa acirrada pelo cargo deixado vago. Na briga eleitoral estão Odorico Paraguaçu (Marco Nanini, de Romance), o candidato da situação, e o jornalista de esquerda Wladimir (Tonico Pereira, de Saneamento Básico – O Filme). Odorico consegue a vitória prometendo um cemitério para a cidade, pois, segundo ele, um lugar que não pode enterrar seus mortos não pode ser respeitado pelos vivos. Desviando dinheiro até não poder mais, Odorico consegue colocar seu plano em prática e constrói um lugar para os cidadãos em estado de “defuntice compulsória”. O problema é que nenhum morador de Sucupira faz o favor de morrer para estrear a grande obra da gestão de Odorico Paraguaçu.

A premissa é genial e já rendeu grandes sucessos na televisão, como a novela, em 1973 e o seriado, exibido entre 1980 e 1984, ambas estreladas por Paulo Gracindo, Emiliano Queiroz e Lima Duarte. Mas como qualquer boa história, se mal contada, o resultado não é tão satisfatório. Guel Arraes parece se escorar na popularidade dos personagens Odorico Paraguaçu, Zeca Diabo e as irmãs Cajazeiras, fazendo um trabalho preguiçoso no roteiro do longa-metragem. Como citado anteriormente, as poucas piadas que funcionam são as brincadeiras com a oratória pouco ortodoxa de Odorico. Marco Nanini, um excelente ator e com ótimo timing cômico, tem alguns momentos inspirados, mas, no todo, está um tom acima do recomendado, assim como quase todo o elenco.

O único que se mantém sóbrio e merece elogios por sua performance é José Wilker, que consegue fazer o que parecia impossível: fazer frente à histórica atuação de Lima Duarte no papel. Mais soturno, apesar de ainda ser bastante ingênuo, o Zeca Diabo de Wilker é o que de melhor O Bem Amado oferece. É uma lástima que apareça tão pouco.

As irmãs Cajazeiras, defendidas por Andrea Beltrão (de Salve Geral!), Zezé Polessa (de Caixa Dois) e Drica Moraes (de Os Normais 2), foram transformadas de beatas para peruas, com os já citados exageros nas performances. O bom Mattheus Nachtergaele (de Baixio das Bestas) parece pouco confortável na pele de Dirceu Borboleta, enquanto que Caio Blat (de As Melhores Coisas do Mundo) e Maria Flor (de Chega de Saudade) protagonizam o romance mais insosso e sem sentido da história da retomada do cinema brasileiro. Eles se conhecem, dois minutos depois já se amam, cinco minutos depois estão separados e, logo mais tarde, são totalmente esquecidos por, pelo menos, meia hora. Uma falha gritante do roteiro, que parece ter incluído um romance apenas por obrigação, não por haver alguma função dentro da história.

Se Marco Nanini não é o ator infalível de outrora em sua performance como Odorico Paraguaçu, ao menos, alguns de seus diálogos engraçados salvam O Bem Amado do fracasso como comédia. O ritmo frenético dos acontecimentos, atrelado às cores berrantes dos figurinos, transforma o longa-metragem em um carnaval de onde pouco se reconhece o texto fino de Dias Gomes. Para piorar a situação, o paralelismo entre a política de Sucupira e os políticos do “mundo real” é dada de bandeja para o espectador, sem nenhum tipo de metáfora ou alegoria, em uma narração descritiva apresentando correlações entre o período anterior à ditadura militar e o arremedo de política que existe em Sucupira.

Por esta falta de tato, O Bem Amado acaba sendo o trabalho mais fraco da até então excelente filmografia de Guel Arraes. Ao lado de Jorge Furtado, Arraes é um dos diretores nos quais sempre se podia confiar quando o assunto em questão são comédias brasileiras com conteúdo. O Bem Amado pode não macular totalmente esta distinção, mas decepciona, deixando aquela impressão que poderia ser muito melhor levando-se em conta os talentos envolvidos.

O Bem Amado
Dir.: Guel Arraes
Com Marco Nanini, Matheus Nachtergaele, Andrea Beltrão, Drica Moraes, Zezé Polessa, Tonico Pereira, Caio Blat, Maria Flor e José Wilker
Cotação Paradoxo: Vale 48% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de O Bem Amado:

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