terça-feira, 10 de agosto de 2010

Meu Malvado Favorito

Gru

A Pixar, estúdio responsável por filmes como Toy Story, Procurando Nemo e Up – Altas Aventuras, elevou o nível das animações para patamares altíssimos. A Dreamworks não fica muito atrás, apostando em produções com humor mais escrachado como Shrek e Madagascar. Mesmo com este nível alto, a Universal resolveu entrar na parada e apostou em Meu Malvado Favorito como sua estréia no gênero. A resposta da bilheteria não poderia ter sido melhor, ultrapassando e muito seu modesto orçamento de US$ 69 milhões. No entanto, o costume de assistir a produções cheias de emoção e beleza como os da Pixar, ou com piadas hilariantes e até adultas como os da Dreamworks, fez muito mal para a estréia dos diretores Pierre Coffin e Chris Renaud.

Com roteiro da dupla Ken Daurio e Cinco Paul (de Horton e o Mundo dos Quem) e história do estreante Sergio Pablos, Meu Malvado Favorito conta a história de Gru (voz de Steve Carell, de Uma Noite Fora de Série), um sujeito malvado que faz questão de ser o maior vilão de todos os tempos. Quando um concorrente, Vetor (Jason Segel, do seriado How I Met your Mother), consegue roubar uma das pirâmides do Egito, Gru percebe que precisa de um plano ainda mais ousado para provar suas qualidades ardilosas. Por isso, o vilão resolve fazer um roubo de proporções gigantescas. Seu objetivo: a lua. No seu caminho está Vetor, que lhe roubara um artefato capaz de diminuir qualquer coisa, essencial para os planos de Gru. Por incrível que pareça, a arma secreta para toda essa situação se resolver e o vilão conseguir seus objetivos não é apenas uma, mas três. No caso, um trio de meninas órfãs que espera ansiosa por alguém que as adote.

Meu Malvado Favorito só não é totalmente descartável por apresentar personagens adoráveis, que facilmente caem no gosto do grande público. É o caso das três meninas que acabam se tornando a pedra no sapato de Gru na tentativa de se tornar um grande vilão. O próprio Gru também funciona bem, sendo retratado não como um sujeito apenas mal, mas como uma pessoa que sofreu na infância com uma mãe nada compreensiva (com voz de Julie Andrews, de Mary Poppins). Steve Carell parece defender bem o personagem, se levarmos em conta os trailers e featurettes disponíveis no You Tube (e que podem ser conferidos no rodapé desta crítica). O que não é o caso da nossa pobre versão brasileira.

Leandro Hassum, humorista do Zorra Total e do programa Os Caras de Pau, é o responsável pela voz do protagonista na versão nacional do filme. Escolhendo um sotaque forte e terrivelmente forçado, a performance de Hassum incomoda bastante, sendo o grande ponto fraco. Uma pena, pois o ator tem carisma e fez um excelente trabalho em Bolt, como o ramster Rhino. Aqui, no entanto, a presença de Hassum e não de um dublador profissional pesou demais no resultado final. É verdade que Carell também escolheu dar um sotaque estranho para Gru, mas nem perto do irritante acento do ator brasileiro. Seu colega de humorísticos, Marcius Melhem, interpreta Vetor e consegue um resultado sensivelmente melhor. Talvez pelo fato de usar seu próprio tom de voz e até certos cacoetes conhecidos dos seus espectadores. Dito isso, é possível que a versão original consiga ser um pouco superior à dublada em português que está sendo exibida nos cinemas. Mas muito pouco.

Até porque, os problemas do roteiro são diversos para serem consertados com apenas uma excelente atuação de Steve Carell (que é ótimo, mas não é mágico). A mudança de característica do protagonista, de um possível grande vilão para um pai adotivo preocupado, é esquemática e mostra como os personagens são movidos mais por forças do roteiro do que por motivações naturais. É óbvio que Gru nunca fora uma figura muito perigosa e que sua “fama de mal” era totalmente fabricada por ele, mas a queda de suas defesas com as três meninas parece tão artificial que soa falsa, portanto, falha. Mesmo sendo um filme voltado para crianças – diferente dos filmes família da Pixar – este cuidado com a história e o seu desenrolar é obrigatório, seja qual for o público alvo.

Não assisti ao filme em 3D, mas acredito não ter perdido muito. Uma cena que deve ser mais emocionante com a projeção em três dimensões é a montanha-russa. Mas ela é tão bem realizada em 2D que não senti falta. O design do longa-metragem, aliás, é digno de nota. Algumas boas idéias da equipe da direção de arte, principalmente na casa do Vetor, conseguem agregar alguma comicidade a um roteiro pouco inspirado neste quesito.

Apostando em piadas fáceis com personagens amarelos chamados Minions, que aparecem apenas para tentar fazer rir com suas pequenas bobagens, Meu Malvado Favorito não cumpre a diversão que promete. Pode ter feito rios de dinheiro para Universal, mas é capenga narrativamente, carecendo de muito mais originalidade por parte de seus roteiristas. O final, com uma manjada aparição de música dos Bee Gees, apenas atesta o fato de que a criatividade não foi a tônica do trabalho. Tirando algumas raras piadas e as personagens fofinhas e adoráveis, esta animação não tem muito mais a oferecer.

Meu Malvado Favorito (Despicable Me)
Dir.: Pierre Coffin e Chris Renaud
Com as vozes originais de Steve Carell, Jason Segel, Russell Brand, Julie Andrews, Will Arnett
Com as vozes dubladas em português por Leandro Hassum, Marcius Melhem, Márcio Simões
Cotação Paradoxo: Vale 53% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Meu Malvado Favorito:



Confira um featurette com Steve Carell apresentando seu novo filme:

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