Menos engraçado que os primeiros dois filmes, mas infinitamente superior ao terceiro, Shrek para Sempre chegou aos cinemas para (em tese) encerrar as aventuras do ogro verde e sua trupe. Dirigido por Mike Mitchell (de Gigolô por Acidente), a última sequência de Shrek se recente da falta de piadas, mas consegue ser um fechamento digno para a saga produzida pelo estúdio Dreamworks.
O roteiro, assinado por Josh Klausner (Uma Noite Fora de Série) e Darren Lemke (Lost – Sem Saída), toma emprestado o tema central do clássico de Frank Kapra A Felicidade Não se Compra. E se Shrek (voz de Mike Myers no original) nunca tivesse existido? Teria feito alguma diferença na vida de seus amigos e conhecidos? É isso que descobrimos quando o ogro, fatigado pela rotina de marido e pai de família, cai na lábia do traiçoeiro Rumpelstiltskin (Walt Dohrn) e troca um dia de sua infância por um dia no qual ele poderia voltar a ser o ogro furioso e temido de outrora. Shrek então é enviado a um universo paralelo no qual ninguém o conhece. Divertindo-se com a situação de início, ele logo percebe que sua vida com Fiona (Cameron Diaz), Burro (Eddie Murphy), Gato de Botas (Antonio Banderas) e seus filhotes era muito mais valiosa. Agora, Shrek precisa achar uma forma de tomar sua vida real de volta.É difícil não comparar este quarto capítulo da saga com os filmes anteriores. Os dois primeiros, sem sombra de dúvida, são os mais divertidos e inovadores. Brincar com os conhecidos contos de fada era uma idéia excepcional e executada com precisão pelo diretor Andrew Adamson – que acabou abandonando a animação para trabalhar com os atores de carne e osso de As Crônicas de Nárnia. O terceiro episódio, comandado pelo inexperiente e estreante Chris Miller, tinha problemas de roteiro e de andamento, que o deixaram um degrau abaixo dos anteriores. Em Shrek Para Sempre, os problemas do ritmo do filme foram solucionados e o roteiro é mais consistente. Mas tem poucos momentos realmente engraçados, assim como Shrek Terceiro.
Shrek para Sempre começa muito bem, é verdade. Seu prólogo traz uma revelação sobre o passado dos personagens que até então desconhecíamos (os próprios roteiristas dos filmes anteriores também, obviamente). Depois, uma interessante sequência é montada mostrando a rotina da vida de Shrek e sua família. A cena é muito bem arquitetada, dando ao espectador a impressão de estar nos sapatos do ogro, vivendo toda aquela confusão e repetição de seus dias. Esse, no entanto, é um dos poucos momentos realmente inventivos do filme. Após essa parte, o longa-metragem segue como uma aventura à moda antiga, sem o humor anárquico que fez a fama de Shrek.
Ao menos, os coadjuvantes de luxo estão ali para segurar as pontas. Novamente, Eddie Murphy, como o boquirroto Burro e, principalmente, Antonio Banderas, como o “robusto” Gato de Botas, roubam a cena, protagonizando as melhores piadas do filme. Banderas prova novamente que o Gato tem grande potencial, mantendo a voz sedutora e ameaçadora mesmo que o físico do personagem não seja tão esbelto quanto antigamente. Não é a toa que está por vir um filme solo do personagem, visto o carisma do felino. Já o Burro não recebe tanto material, mas consegue se sobressair aqui e ali. Eddie Murphy consegue torcer as frases do roteiro até que elas tenham alguma graça e sua performance como o Burro deixará saudades, certamente.
Mas a grande surpresa do filme não é nenhuma estrela famosa de Hollywood. É um sujeito chamado Walt Dohrn, responsável por ajustes nos roteiros de Shrek 2 e Shrek Terceiro, além de ter dirigido alguns episódios de Bob Esponja. Durante os ensaios, Dohrn fazia a voz de todos os personagens e chamou a atenção dos produtores por sua performance como o vilanesco Rumpelstiltskin. Ele que já havia gravado algumas vozes para o terceiro capítulo da saga do ogro verde acabou sendo convidado para interpretar o grande vilão da história, cargo já ocupado por John Litghgow (de 3rd Rock from the Sun), Jennifer Saunders (de Absolutamente Fabulosas) e Rupert Everett (de O Casamento do Meu Melhor Amigo) nos episódios anteriores. Seu trabalho é excepcional, dando uma doçura psicótica à voz do tratante duende. Jon Hamm (do seriado Mad Men) e Jane Lynch (do seriado Glee) são outras duas boas novidades no casting de vozes, unindo-se aos já conhecidos John Cleese (o eterno Monty Python, que retorna como o rei Harold) e Julie Andrews (a eterna Mary Poppins, que volta como a rainha). Mike Myers, a voz do protagonista, mantém-se correto, como em todos os capítulos. Neste, inclusive, consegue se sair bem nas cenas que requerem maior dramaticidade. Como é o capítulo final, Shrek para Sempre se dá o direito de ser mais emocionante, amarrando as pontas soltas com cenas que podem gerar lágrimas nos mais sensíveis.
Agora, é esperar e ver quanto tempo custará para alguém chegar com um “novo começo” para a saga Shrek. Com uma franquia de sucesso nas mãos, é difícil acreditar que a Dreamworks realmente vá desistir de investir no ogro verde. O spin-off do Gato de Botas, ambientado antes de Shrek 2, é um indício de que os personagens não vão abandonar seu público tão cedo. É muito provável que o sucesso dela poderá dar origem a outros spin-offs. E, talvez, o retorno do próprio Shrek. Com Hollywood, o capítulo final nem sempre é definitivo.
Shrek Para Sempre (Shrek Forever After)
Dir.: Mike Mitchell
Com as vozes de Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz, Antonio Banderas, John Cleese, Julie Andrews, Walt Dohrn, Jon Hamm, Jane Lynch
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Shrek para Sempre:
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