O plano original dos diretores Quentin Tarantino e Robert Rodriguez com Grindhouse era o seguinte: fazer uma homenagem às sessões duplas de antigamente, fazendo uma espécie de revival do cinema B dos anos 70. Então, Planeta Terror e À Prova de Morte seriam exibidos na mesma sessão, com um pequeno intervalo para a inclusão de trailers falsos. Infelizmente, para os brasileiros, esse “pequeno intervalo” entre um filme e outro durou aproximadamente três anos. Planeta Terror teve seu lançamento no país em novembro de 2007. Seu irmão de sangue e vísceras, À Prova de Morte, só encontrou seu público em julho de 2010. Uma demora criminosa se levarmos em conta que estamos falando de um longa-metragem de Quentin Tarantino, cineasta que deu ao mundo pérolas como Cães de Aluguel, Pulp Fiction e, mais recentemente, Bastardos Inglórios.
É bem verdade que À Prova de Morte está longe de ser o melhor trabalho do diretor. Mas tem qualidades que o destacam e que o tornam um passatempo divertido e escapista na medida. O roteiro é assinado, como não poderia deixar de ser, pelo próprio Tarantino e contém os tradicionais personagens verborrágicos que tanto conhecemos das obras do cineasta. Na trama, Stuntman Mike (Kurt Russell, de Posseidon) é um dublê das antigas – da época em que Hollywood não colocava tudo nas mãos do CGI – que dirige pelas ruas seu carro modificado e à prova de morte. Quando ele encontra quatro garotas sedutoras em um bar no Texas, seu pensamento é apenas um: o desejo incontrolável de matá-las.
Sem entregar muito da história, é isso que encontramos em À Prova de Morte. O filme, na verdade, é dividido em duas partes. A primeira é estrelada pelas garotas Arlene (Vanessa Ferlito, de Julie & Julia), Jungle Julia (Sydney Poitier, de Nove Vidas), Shanna (Jordan Ladd, de O Albergue II) e Pam (Rose McGowan, de A Dália Negra). Já a segunda parte tem como protagonistas Abernathy (Rosário Dawson, de Sin City), Lee (Mary Elizabeth Winstead, de Duro de Matar 4.0), Kim (Tracie Thoms, de O Diabo Veste Prada) e Zoe Bell (a própria, que serviu de dublê para Uma Thurman em Kill Bill).
Enquanto que o primeiro segmento tem atuações inconsistentes de boa parte do elenco feminino - que não convence ao soltar o texto de Tarantino, a segunda parte do filme é bastante superior em matéria de atuações. Até Zoe Bell, que estréia aqui como atriz após fazer trabalhos de dublê em diversas produções, consegue ser mais cativante e divertida do que as garotas da primeira metade de À Prova de Morte. Trabalhando alguns fetiches da mente masculina como danças eróticas e líderes de torcida, Tarantino parece se importar mais com a sensualidade e a aparência de suas garotas do que com a atuação. Em qualquer outra produção, isso seria um erro terrível. No entanto, o conceito é emular os filmes setentistas de exploitation, que não possuíam realmente nenhum cuidado maior com a performance do elenco. Sexo e violência vinham primeiro. Não é a toa que levavam “exploração” no nome.
Kurt Russell, depois de amargar produções verdadeiramente de segunda categoria, retorna bastante à vontade como o psicótico Stuntman Mike. Excitado ao colocar garotas em perigo mortal, Mike é uma figura bastante perturbada, mas que calcula muito bem seus próximos passos para conseguir o que quer. Com uma grande cicatriz no rosto e roupas esquisitas, Stuntman Mike é mais um bizarro personagem na galeria de Quentin Tarantino.O diretor, aliás, é conhecido por ter um ego inflado e em À Prova de Morte, ninguém o segurou quanto a isso. Basta ver que esse é, certamente, o trabalho mais auto-referencial de Tarantino. As tomadas destacando pés femininos, os planos-sequência, o enquadramento de dentro de um porta-malas. Além disso, existem citações, referências e reverências a quase todos os filmes dirigidos ou escritos pelo cineasta. Desde a cena da lanchonete de Cães de Aluguel, passando por algumas falas emprestadas de Pulp Fiction e objetos de cena de Jackie Brown.
Fora o fato de que o longa-metragem pertence ao mesmo universo de Kill Bill, Um Drink no Inferno e Planeta Terror - estes dois últimos dirigidos por Rodriguez, mas com participação ativa de Tarantino. Ou seja, personagens retornam – como o xerife Earl McGraw (Michael Parks) – e até é possível desenhar uma linha do tempo com os acontecimentos de todos os filmes. Se duvida, basta dar uma conferida na sessão de perguntas freqüentes do site IMDb. Está tudo explicado com detalhes.
À Prova de Morte, como dito anteriormente, não é o melhor trabalho de Tarantino, mas é tão divertido e feito com tanto carinho cinéfilo pelo diretor que fica difícil não se render às bizarrices escritas pelo cineasta. É uma daquelas produções realizadas única e exclusivamente para atender aos desejos de rato de locadora de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. Felizmente, o público também consegue se divertir bastante junto com eles.
À Prova de Morte (Death Proof)
Dir.: Quentin Tarantino
Com Kurt Russell, Zoe Bell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Sydney Tamiia Poitier, Tracie Thoms, Rose McGowan, Jordan Ladd, Mary Elizabeth Winstead, Quentin Tarantino, Marcy Harriell, Eli Roth, Omar Doom, Michael Bacall, Monica Staggs, Michael Sparks
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de À Prova de Morte:
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