segunda-feira, 26 de julho de 2010

Predadores

Caçada Humana

Quem saiu insatisfeito da sessão de Predadores provavelmente não tinha em grande consideração os filmes originais, estrelados por Arnold Schwarzenegger, em 1987, e Danny Glover, em 1990. O longa-metragem dirigido por Nimród Antal (de Temos Vagas) e com produção de Robert Rodriguez (de Sin City) mantém uma atmosfera de carnificina e suspense equivalente àqueles trabalhos e apresenta uma melhora considerável no nível do elenco. Saem os brutamontes do primeiro filme, entram assassinos inteligentes. Sai um “franzino” predador, entram três gigantes monstruosos. É bem verdade que existem alguns momentos totalmente dispensáveis em Predadores. Mas, no todo, o filme é um passatempo que entretém o suficiente e, para os fãs do gênero, vale uma conferida mais de perto.

Rodriguez vem nutrindo o desejo de assinar uma continuação para o violento alienígena caçador desde os anos 90. A sua premissa finalmente conseguiu sair do papel depois do resultado abaixo do esperado do crossover Alien VS Predador 2. Por falar nisso, Predadores não segue a história destes conflitos entre as duas criaturas. Ele é, sim, uma continuação direta do Predador original – inclusive referenciado em diálogo – e do segundo capítulo, este, no entanto, não citado. A idéia de Robert Rodriguez foi colocada em roteiro pela dupla novata Alex Litvak e Michael Finch, baseando-se, claro, nos personagens criados por John e Jim Thomas.

Na trama, alguns humanos com diferentes habilidades – mas com passado sangrento – são literalmente jogados em uma floresta estranha e têm de aprender a trabalhar em grupo para não servirem de caça para os perigosos predadores alienígenas com sede de sangue.

Dentro deste grupo estão Royce (Adrien Brody, de O Pianista), um lobo-solitário mercenário e inteligente; Stans (Walton Goggins, de Milagre em Santa Anna), um presidiário sanguinário condenado à morte; Isabelle (Alice Braga, de Ensaio sobre a Cegueira), membro das Forças de Defesa de Israel; Hanzo (Louis Ozawa Changchien, do ainda inédito Fair Game), membro da máfia japonesa Yakuza; Cuchillo (Danny Trejo, de Era uma Vez no México), traficante de drogas mexicano; Mombasa (Mahershalalhashbaz Ali, de O Curioso Caso de Benjamin Button), membro da Frente Revolucionária Unida de Serra Leoa; Nikolai (Oleg Taktarov, de As Duas Faces da Lei), integrante das forças especiais russas; e Edwin (Topher Grace, de Homem-Aranha 3), um médico e o mais improvável escolhido para o jogo dos predadores.

Este grupo tão diverso não possui nada em comum, a não ser a sua capacidade em manter-se vivo em situações limite. Caídos de pára-quedas nesta situação, estes assassinos precisam se unir para enfrentar um perigo ainda maior. O interessante de Predadores é que existe tempo para desenvolver quase todos os personagens. Até mesmo os primeiros a sucumbirem aos sanguinários alienígenas têm tempo de mostrar a que vieram.

Com esta estrutura de roteiro, não é à toa a escolha de bons atores para interpretarem estes papéis. Aqueles personagens não estão ali apenas para servirem de banquete para os predadores. Eles têm histórias pregressas e, por piores que sejam na Terra, naquele planeta desconhecido reencontram alguma parte de sua humanidade perdida. Essa profundidade improvável em um filme de terror é o que deixa Predadores um degrau acima de continuações caça-níqueis que vemos por aí.

A contratação de Adrien Brody como protagonista da história foi amplamente questionada ao ser anunciada, visto que o ator não tinha o físico ou o perfil que supostamente se encaixasse em um filme antes estrelado por Arnold Schwarzenegger. Ele, no entanto, é a melhor escolha do elenco. Por se afastar totalmente da figura robusta que o governador da Califórnia possuía em 1987, Brody dá à Royce outras qualidades que realmente o manteriam vivo nos diversos combates que enfrentou. Frio, inteligente e estratégico – mesmo que isso custe a vida de seus companheiros – Royce é um sujeito terrivelmente perigoso. Brody se transforma em uma figura ameaçadora, com voz rouca e de poucos sorrisos. Para ficar ainda mais crível no papel, o ator malhou para ganhar massa muscular e não faz feio quando é colocado em ação. Brody é uma feliz surpresa em um gênero que é conhecido por se preocupar mais na quantidade de sangue do que na qualidade das atuações.

A brasileira Alice Braga é um dos destaques em um elenco basicamente masculino. Já acostumada a estrelar produções internacionais, mas sem muita experiência no gênero ação, a atriz consegue transmitir um pouco de compaixão em um ambiente totalmente destituído de qualquer sentimento afetuoso. Ela é a cola que une aqueles homens, sendo a primeira a perceber que os humanos só sairão daquela situação caso se unam. Impressionante também é o ator californiano Mahershalalhashbaz Ali. Não tanto por sua atuação, mas pelo quilométrico e pouco prático nome artístico (que é, na realidade, seu nome de batismo, retirado da Bíblia, segundo o IMDb).

Quanto à direção, Nimród Antal consegue se sair bem nas cenas de ação, mas mostra-se um cineasta bastante convencional em todo o resto. Nenhum grande arroubo de originalidade, mesmo trabalhando sob o selo da produtora de Rodriguez, a Troublemaker, conhecida por filmes inusitados e cheios de personalidade. O fato de ser apenas seu terceiro filme em Hollywood não o exime da responsabilidade, visto que John McTiernan, diretor do Predador de 1987, havia comandado apenas um longa-metragem antes desta aventura. Como Predadores tem o seu maior ponto forte as cenas de ação, Antal acabou sendo uma escolha, se não a melhor, ao menos capacitada para dar conta do recado.

Mas quem vai ao cinema para assistir a um filme da franquia Predador espera mesmo é ver o grande vilão em ação. Para os fãs, um recado: a espera vale a pena. Os alienígenas ameaçadores do filme são excelentes criações, mas são mantidos escondidos por boa parte da trama. No primeiro momento, parece gratuita esta escolha. No primeiro Predador existia uma razão importante, já que o espectador não conhecia o monstro e a tensão aumentava a cada minuto que aquela figura era escondida. Décadas depois e com tantos filmes explorando a imagem do predador, não parecia ser tão necessário não mostrá-lo. No entanto, somos apresentados a novos predadores. Maiores e mais fortes que os originais. Em uma excelente cena, observamos inclusive às qualidades de espadachim de um destes extraterrestres. A clássica cena da retirada do crânio/espinha dos humanos também é mantida.

Apesar de ser um divertido e escapista longa-metragem, é impossível não perceber algumas falhas no roteiro que, se não atrapalham totalmente o resultado final, deixam um gosto amargo na boca. Exemplo disso é a pequena participação de Laurence Fishburne (de Matrix). Ainda que sua atuação não seja nada ruim, o personagem é tão desinteressante e acrescenta tão pouco ao filme que poderia ter ficado totalmente de fora do corte final. Os roteiristas não souberam nem trabalhar o conceito de um humano utilizando a tecnologia de camuflagem dos alienígenas, jogado displicentemente no meio da trama e abandonado logo depois. É bem provável que isso seja usado em uma futura continuação, mas, de qualquer forma, poderia ser trabalhado de forma mais relevante no roteiro deste episódio.

Além de ter estas pequenas falhas, um dos personagens ganha outros tons ao final do filme, uma virada do roteiro que até funcionaria melhor caso o ator em questão tivesse um desempenho melhor – e guardo sua identidade unicamente para não estragar a surpresa do leitor. Esse twist do roteiro só não é totalmente gratuito por tirar de ação outro importante personagem, e mostrar novamente a faceta destemida do protagonista da história. Mas, convenhamos, poderia ser bem melhor.

Predadores é uma continuação que, diferente do crossover Alien VS Predador, mantém a qualidade do original nas cenas de ação e suspense e consegue superá-lo com relação ao elenco escolhido. É uma pena para os fãs que Arnold Schwarzenegger e Danny Glover não tenham aceitado repetirem seus papéis em pontas. Dizem os boatos que Glover interpretaria o papel dado a Fishburne – o que o tornaria bem mais interessante, diga-se – enquanto que o governador da Califórnia apareceria na cena final. Tivesse acontecido, seria uma tremenda surpresa e mais um ponto a favor de Predadores. Talvez fique para uma próxima, quem sabe?

Predadores (Predators)
Dir.: Nimród Antal
Com Adrien Brody, Topher Grace, Alice Braga, Walton Goggins, Oleg Taktarov, Danny Trejo, Louis Ozawa Changchien, Mahershalalhasbaz Ali, Carey Jones, Brian Steele, Derek Mears e Laurence Fishburne
Cotação Paradoxo: Vale 82% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Predadores:

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