Em época de Copa do Mundo, é de se estranhar que a Sony não tenha tentado lançar Maldito Futebol Clube nos cinemas brasileiros, aproveitando o falatório do mundial e a apreciação do esporte no país. Talvez o medo de que as pessoas não saiam de casa durante todo o período do torneio tenha feito com que o ótimo longa-metragem dirigido por Tom Hooper (da mini-série John Adams) tenha sido lançado diretamente em DVD. Uma pena. Apesar de tomar para si liberdades demais ao contar uma história real, Maldito Futebol Clube é um dos melhores filmes que retratam o esporte bretão.
O filme reúne novamente Peter Morgan e Michael Sheen, duo que tem se mostrado afinadíssimo em seus trabalhos conjuntos. O roteirista e o ator, já com bons trabalhos pouco conhecidos no currículo, começaram a realmente despertar a atenção do público em A Rainha (2006), de Stephen Frears, e repetiram a dose no excelente Frost/Nixon (2008), comandado por Ron Howard. Em Maldito Futebol Clube, a parceria entre Morgan e Sheen dá mais um excelente resultado.
Sheen vive o controverso técnico britânico Brian Clough nesta trama ambientada entre o fim dos anos 60 e começo dos 70. Após conseguir colocar o time de segunda divisão Derby County no patamar dos grandes da Inglaterra, o técnico é convidado para treinar o rico e difícil clube Leeds United, substituindo seu arqui-rival, Don Revie (Colm Meaney, de Código de Conduta), que acabara de ser convocado para comandar a seleção inglesa. Clough não conta mais com os conselhos de seu amigo de longa data e auxiliar técnico Peter Taylor (Timothy Spall, de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) e assume uma difícil tarefa: comandar um time totalmente fiel ao seu antigo treinador e que, para piorar, acaba de ser esculachado pelo próprio Brian Clough em uma entrevista. A narrativa do filme costura o passado do técnico e sua campanha de vitórias ao lado de Peter Taylor com a sua ligeira experiência à frente do Leeds United.É um verdadeiro prazer assistir a Michael Sheen interpretar um personagem tão vaidoso, inteligente e cheio de si quanto Brian Clough. Frost/Nixon, no ano anterior, parece ter sido um ensaio para o ator, que parece ter buscado um pouco da cara-de-pau de David Frost para compor seu Brian Clough, incluindo mais agressividade e destempero em suas relações pessoais. Sheen imprime ambição e vaidade sob medida para Clough sendo o real destaque da produção. A rivalidade com Don Revie nasce de um motivo tão insignificante – porém, tão real para alguém com um ego inflado - que soa bastante real. No entanto, não se deve acreditar 100% no que o roteiro de Peter Morgan traz à tona.
Isso porque o texto do roteirista é baseado no livro The Damned United de David Peace, que é acusado de romancear por demais alguns “fatos verídicos”. Em uma rápida pesquisa na Internet é possível achar diversas diferenças entre o que acontece na tela e o que aconteceu na realidade – desde placar, local e datas de jogos até fabricações que servem apenas para ajudar na trama, como o início das rusgas entre Revie e Clough. Se por um lado, Maldito Futebol Clube peca ao se afastar dos fatos reais, por outro, é uma mentira muito bem contada.
O ritmo do filme é excepcional, conseguindo mesclar muito bem os fatos do presente (Brian no Leeds) com os acontecimentos do passado (Brian no Derby). A costura é feita de forma bastante harmônica e facilmente inteligível – com direito a caracteres na tela nos informando o ano que a trama se passa e divertidos grafismos que acompanham as temporadas vitoriosas do Derby County nas mãos hábeis de Brian Clough e Peter Taylor.
Por falar neste último, Timothy Spall consegue transmitir muito carinho e inteligência com seu Peter Taylor, o legítimo grande cérebro por trás do grande homem. Mesmo que Clough nem sempre entenda o quanto sua parceria com Taylor é importante, o filme não deixa dúvidas de que o técnico não teria metade da competência sem os conselhos do amigo. Claro que este viés também é discutível, dada a liberdade do roteiro para com a realidade. Mas para fins fictícios, é interessante esta dinâmica de trabalho entre os dois e como ela é quebrada por mais um dos devaneios de Brian Clough.
Com uma fotografia belíssima assinada por Ben Smithard (do documentário sobre o festival de rock Glastonbury), amplificada por enquadramentos meticulosos de Tom Hooper, e uma direção de arte que recria com perfeição as décadas de 60 e 70, Maldito Futebol Clube é um ótimo longa-metragem que, se visto com um trabalho fictício com lapsos de realidade, se torna um programa imperdível. Vale pelas atuações perfeitas e pela história muito bem contada. Ainda mais em época de Copa do Mundo, quando todas as atenções estão voltadas ao futebol.
Maldito Futebol Clube (The Damned United)
Dir.: Tom Hooper
Com Michael Sheen, Timothy Spall, Colm Meaney e Jim Broadbent
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Maldito Futebol Clube:
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