quinta-feira, 17 de junho de 2010

Lunar

Man on the Moon

Duas coisas para começo de conversa: se você ainda não assistiu a Lunar, corra para a locadora mais próxima, alugue e o assista. A distribuidora brasileira preferiu não lançá-lo no cinema, o que é uma lástima. Mas não se engane. A decisão nada tem a ver com as qualidades do filme, uma história rica e interessantíssima assinada por um diretor estreante dos mais talentosos. O que me leva ao segundo aviso desta crítica: se você ainda não assistiu a Lunar, tome cuidado ao ler este texto. É impossível escrever uma análise mais profunda sem revelar pontos do filme que estragariam a surpresa dos que não o conferiram ainda. Portanto, em vários parágrafos seguirão avisos de SPOILER. OK? Aviso dado. Vamos seguir em frente, com SPOILERS.

Não foi a toa que o Bafta – o Oscar do cinema britânico – laureou o cineasta estreante em longas-metragens Duncan Jones com o prêmio de Melhor Cineasta Iniciante por seu trabalho em Lunar. Sua ficção científica com lampejos de 2001 – Uma Odisséia no Espaço é um trabalho sensível e belíssimo sobre a condição humana em situações extremas. Humana? Um dos protagonistas é um robô apelidado de GERTY e o outro, um clone. Apesar destas características notadamente artificiais, ambos personagens possuem material humano suficiente para serem vistos como tais. Fim do Spoiler

A trama é assinada pelo estreante Nathan Parker, em cima de história criada por Duncan Jones. Sam Bell (Sam Rockwell, de Homem de Ferro 2) é um astronauta que se aproxima do final de sua missão de três anos na lua. Lá, extrai uma matéria especial que é enviada para Terra, mantendo assim o planeta funcionando com energia limpa. Seu único companheiro nesta missão é o robô GERTY (voz de Kevin Spacey, de Beleza Americana), inteligência artificial que o ajuda nas mais variadas tarefas. Bell tem esposa e filha saudosas o esperando em casa, e cada dia de trabalho é visto como um dia a menos longe de sua família. Como não consegue se comunicar com sua mulher em tempo real devido a um problema no transmissor da estação, apenas curtas mensagens gravadas ajudam a matar as saudades. A proximidade da data do final do contrato de três anos acaba pesando em Sam, que tem tido devaneios e visões estranhas nos últimos tempos. Quando um acidente de trabalho o tira de circulação, uma terrível verdade surge, abrindo os olhos do astronauta sobre sua missão na lua.

Palmas para o diretor Duncan Jones (que é filho de David Bowie, provando que talento é hereditário). Conseguindo fazer milagres com um orçamento enxutíssimo de US$ 5 milhões, o cineasta estreante dá a Lunar características intimistas vistas antes apenas em clássicos da ficção científica como 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Blade Runner – O Caçador de Andróides e Alien – O Oitavo Passageiro.

SPOILER O primeiro é facilmente lembrado devido ao isolamento do protagonista, sua relação com um computador e as belas tomadas no espaço. Cabe ao segundo a referência aos replicantes e o seu curto tempo de vida. Já o terceiro tem mais a ver com a forma inteligente e econômica que o cineasta trabalha a trama de Lunar, remetendo algo que Ridley Scott fizera no Alien original, de 1979. Apesar de serem claras referências para Duncan Jones, o cineasta britânico parece tomar cuidado em fazer seu próprio filme, sem reutilizar conceitos já batidos em outras tramas sci-fi.

Um grande exemplo disso é o fato de GERTY estar realmente ao lado de Sam, sempre tentando ajudá-lo – e até passando por cima de sua programação original para melhor assistir seu amigo. Para os que estão acostumados a assistir ficções científicas, é até estranho observar o relacionamento entre protagonista e máquina. Sempre esperava por uma reviravolta que revelaria GERTY como um robô assassino e vilanesco, devido claro ao background das tramas sci-fi que sempre mostravam estas inteligências artificiais como seres terríveis. Felizmente, isso não acontece em Lunar. GERTY genuinamente deseja o bem de Sam e Kevin Spacey consegue transmitir isso em seu trabalho vocal. Por não sucumbir ao pré-estabelecido, o roteiro de Nathan Parker e Duncan Jones ganha muitos pontos.

O filme, no entanto, não existiria sem a presença de Sam Rockwell, ator dos mais interessantes em Hollywood, que consegue passear confortavelmente entre blockbusters famosos (Homem de Ferro 2, As Panteras) e trabalhos menores e mais desafiadores (Confissões de uma Mente Perigosa, Estão Todos Bem). Em Lunar, Rockwell ganha novamente a chance de mostrar seu talento em um papel duplo e bastante difícil. O ator vive Sam Bell em duas versões, dando características distintas a cada um e mantendo sempre o olhar do espectador em suas ações. Como existem apenas dois personagens centrais e um deles é um robô que expressa suas emoções com smiley faces (muito funcionais), Sam Rockwell tem a responsabilidade de carregar o filme nas costas. E consegue.

Enquanto o primeiro Sam Bell é uma figura sonhadora e visivelmente isolada, peso natural dos três anos de trabalho solitário, o segundo é mais prático e sente que pode fazer a diferença ao tomar atitudes. Rockwell consegue de forma excepcional transmitir ao espectador as diferenças entre cada personagem, mesmo que eles sejam, de fato, o clone de uma mesma pessoa – portanto, poderíamos supor que seriam indivíduos iguais. No entanto, a consciência de ser um duplo de um ser humano acaba dando para cada um daqueles “Sam” um outro olhar sobre sua própria existência. Fim do Spoiler

Lunar é uma pequena pérola que, infelizmente, com seu lançamento apenas em DVD pode passar despercebido do grande público. Aos apreciadores de uma boa ficção científica, o longa-metragem de estreia do cineasta Duncan Jones é programa obrigatório. Este texto pode ter ficado bastante truncado pelos inúmeros avisos de spoiler, mas valeu a pena poder escrever com mais liberdade sobre um ótimo filme. Espero que o leitor, depois de ter visto o filme, retorne aqui e confira as linhas que faltaram.

Lunar (Moon)
Dir.: Duncan Jones
Com Sam Rockwell, Kevin Spacey
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Lunar:

1 comentários:

ofimdocaminho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.