Deus nos abandonou. Cansado de aturar a estupidez humana, mandou uma legião de anjos para exterminar a população do Planeta Terra – algo semelhante havia sido feito há milênios atrás, época do dilúvio. A luta seria bastante desigual, mas para nossa sorte, um poderoso membro do exército de Deus ficou ao lado da humanidade, desacatando as ordens do Todo Poderoso: o arcanjo Miguel. Essa é basicamente a idéia central de Legião, filme assinado pelo cineasta estreante Scott Stewart. Apesar de a premissa ser original e com potencial para render um bom longa-metragem, a leva de clichês reunida no resto da trama é assustadoramente alto, atrapalhando um resultado superior.
A trama é assinada pelo diretor ao lado de Peter Schink (montador transformado em roteirista recentemente) e traz Paul Bettany (de Criação) como o arcanjo Miguel. Ele parte para salvar a garçonete grávida Charlie (Adrienne Palick, do inédito no Brasil Women in Trouble), que carrega em seu ventre a esperança máxima para o futuro da humanidade. A moça nunca teve muito interesse em continuar com sua gravidez, mesmo com a ajuda do amigo – e apaixonado platônico – Jeep (Lucas Black, de Soldado Anônimo), filho do seu chefe, Ben (Dennis Quaid, de Ponto de Vista). Ao lado de alguns clientes do restaurante, estes personagens formarão um grupo que lutará pela sua vida contra os terríveis seres humanos possuídos pela legião de anjos. Scott Stewart é hábil em criar algum clima de urgência para contar sua história e a sensação de perigo é palpável no início da trama. No entanto, a originalidade do roteiro, retrabalhando a figura dos bondosos anjos, acaba se perdendo na execução. Os vilões da história parecem mais zumbis do que qualquer outra coisa. Em vez de utilizar o conceito diferenciado para criar outro tipo de ameaça para os heróis da história, Stewart e sua equipe acabam escolhendo o caminho mais fácil e já trilhado antes. É tão verdade isso que os melhores momentos do filme são os que envolvem a velha senhora e a criança demoníaca, únicos personagens possuídos que ganham alguma característica diferenciada, não sendo meros zumbis acéfalos.
Se o problema fosse só esse, Legião ainda conseguiria se salvar. Mas são muitos clichês reutilizados pelo roteiro. A velha história do bebê que é a salvação do mundo é mais velha que andar pra frente. A família disfuncional, o garoto tímido e a mulher que não dá bola para ele são igualmente lugares-comuns. Sem contar algumas situações incongruentes, que servem apenas para ajudar no clima estranho de algumas cenas (que restaurante serve carne quase crua para uma velha senhora?). Para dar um pouco de crédito aos roteiristas, ao menos existem tentativas de se desenvolver os personagens da história. É muito mais do que vários filmes de ação se propõem, portanto Stewart e Schink merecem pontos por isso.
Por falar em filmes de ação – que não são conhecidos pelo seu cuidado na preparação de elenco - Legião tem um casting bem interessante, capitaneado por um Paul Bettany bastante correto como o arcanjo Miguel. Taciturno e enigmático, Miguel ainda ama a humanidade, mesmo tendo de ir contra os desejos divinos. Diferente de seu “colega de trabalho”, Gabriel (Kevin Durand, de Robin Hood), que é totalmente fiel aos desígnios de Deus e pretende seguir à risca sua tarefa. Durand consegue, mesmo em uma pequena participação, dar uma inédita virilidade ao arcanjo Gabriel, se mostrando um desafio à altura para Miguel. No entanto, a direção de arte e o figurino são tão equivocados que o trabalho do ator vai quase por água abaixo, transformando Gabriel em um projeto de vilão dos Power Rangers. A sua clava prateada e hi-tech é um objeto de cena tão fora de lugar quanto a coruja mecânica de Fúria de Titãs. Ou talvez até pior.
Com exceção de Lucas Black, que ganha um personagem terrivelmente enfadonho e Adrianne Palicki, que também não é ajudada por um roteiro que transforma a “mocinha” em um purgante, o resto do elenco tem boas atuações, condizentes com o gênero em questão. Com um roteiro melhor construído, Legião poderia ser um ótimo filme, já que traz uma premissa interessante. Do modo que acabou sendo realizado, não aproveita as boas idéias e acaba caindo na vala comum dos filmes de ação.
Legião (Legion)
Dir.: Scott Stewart
Com Paul Bettany, Lucas Black, Tyrese Gibson, Adrianne Palicki, Kevin Durand, Jon Tenney, Willa Holland, Kate Walsh, Charles S. Dutton e Dennis Quaid
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer de Legião:
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