quinta-feira, 20 de maio de 2010

Tá Rindo do Quê?

Gente Engraçada

Judd Apatow vinha sendo saudado como o Midas da comédia norte-americana depois de suas duas bem sucedidas incursões na direção em O Virgem de 40 Anos (2005) e Ligeiramente Grávidos (2007). Ambos foram sucessos de bilheteria e receberam uma ótima resposta da crítica especializada, que geralmente torce o nariz para o gênero cômico. Era de se esperar que seu terceiro trabalho, Funny People, continuasse a trilha de sucesso do cineasta. O elenco conta com um ator do gosto do grande público, Adam Sandler (de O Paizão), dividindo a tela com o amuleto da sorte do cineasta, o talentoso Seth Rogen. Algo, no entanto, saiu errado no meio do caminho e o filme, que custou 75 milhões de dólares, acabou não se pagando em solo norte-americano. Com a recepção abaixo do esperado pelo público, Funny People foi relegado a um lançamento direto em DVD no Brasil, com o título de Tá Rindo do Quê?. E é essa a pergunta que muitos farão ao final do longa-metragem.

Na trama, assinada pelo próprio diretor, o popular comediante e ator George Simmons (Sandler) descobre que está com uma doença terminal e que sua única chance de cura é um tratamento alternativo que tem apenas 8% de chances de surtir efeito. Deprimido com sua situação, sem amigos próximos para dividir o peso da notícia, Simmons decide visitar uma notória casa de stand up, a Improv, onde se apresentada no início da carreira, para retornar às raízes. Lá, conhece o novato Ira Wright (Rogen), um comediante que chama a atenção pelo potencial, e que logo é contratado por Simmons para escrever novas piadas e auxiliá-lo em questões gerais (desde vender seus carros a trazer refrigerante). A enfermidade coloca o comediante em estado crítico crescente, sempre se perguntando se esta é a vida que ele tanto sonhara. O que mais faz Simmons sofrer é ter perdido sua namorada – a hoje casada e com dois filhos Laura (Leslie Mann, esposa do diretor e atriz de Ligeiramente Grávidos). Por isso, o comediante tentará recuperar sua amada de qualquer forma, mesmo que isso custe dar fim a uma família.

Mostrando que, quando bem dirigido, consegue atuações acima do seu normal, Adam Sandler convence em um personagem escrito sob medida para ele. George Simmons é, de certa forma, uma versão mal humorada e auto-centrada de Sandler (levando em conta que o ator não seja realmente assim na vida real). Basta ver os filmes fictícios que Simmons estrelou (besteiras como o “homem sereia” ou o marmanjo que vira bebê) e dá para se ter uma noção de que o ator que encabeçou filmes como O Rei da Água e Little Nicky não está tão longe de sua versão fictícia. Sandler consegue extrair amargura e um ótimo senso de humor negro na primeira metade de Tá Rindo do Quê?, fazendo com que o espectador acredite no mau momento porque passa o personagem. É interessante notar que o personagem passa por transformações durante a narrativa, mas quase nenhuma é perene, visto que o estado de espírito de Simmons é praticamente imutável. Doente ou não, sua solidão será sempre sua companheira, mesmo que ele tente se enganar com um novo começo.

Seth Rogen também é um destaque positivo, imprimindo ingenuidade e doçura na medida, contrastando com seus números de stand up, que geralmente pendem para o grotesco e para o escatológico. A dobradinha entre Rogen e Sandler é o que acaba segurando Ta Rindo do Quê? de despencar ladeira abaixo. Isso porque o roteiro acaba se perdendo depois da primeira metade, se tornando uma perseguição atrás da mulher perdida. Todo o segmento envolvendo a casa de Laura é incrivelmente longo e deixa o filme pesado demais. Nem a notável (e até surpreendente) atuação cômica de Eric Bana (de Munique) consegue afastar o sentimento de que faltou a Judd Apatow um maior distanciamento crítico na hora de decidir o que ficava e o que caía fora do seu longa-metragem. Explico: é nesse segmento que sua esposa, Leslie Mann, e suas duas filhas, Maude e Íris Apatow, ganham tempo de tela.

Além de aparentemente lhe faltar este distanciamento, Apatow tem sérios problemas com o andamento da narrativa, totalmente frouxa. As situações demoram demais para acontecer e isso vai aumentando a metragem do filme, que termina com exagerados 146 minutos. Tamanho de épico para uma comédia que poderia facilmente ser enxugada.

Com algumas ótimas piadas, com bons coadjuvantes como Jonah Hill (de Superbad) e Jason Schwartzmann (de Viagem a Darjeling) e com diversas participações especiais interessantes (Paul Reiser, do seriado Mad About You, Ray Romano, de Everybody Loves Raymond, Charles Fleisher, a voz do personagem principal de Uma Cilada para Roger Rabbit), Ta Rindo do Quê? pode não ser tão divertido quanto os dois filmes anteriores do cineasta, mas também não é razão para se decretar terra arrasada. É longo demais e tem algumas cenas que facilmente poderiam ficar de fora. Mas, no geral, é um entretenimento sólido, trabalha muito bem os bastidores do showbusiness, é auto-referencial sem ser petulante e diverte mais do que incomoda. Poderia ser melhor, levando-se em conta o talento de Judd Apatow e Seth Rogen. Por outro lado, poderia ser muito pior, ao notarmos quem é o protagonista da história e os abacaxis que já estrelou. A balança fica equilibrada no fim das contas.

Tá Rindo do Quê? (Funny People)
Dir.: Judd Apatow
Com Adam Sandler, Seth Rogen, Leslie Mann, Jonah Hill, Jason Schwartzmann, Eric Bana
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira o trailer de Tá Rindo do Quê?:

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