sexta-feira, 21 de maio de 2010

Só Dez Por Cento é Mentira

Poeta em tempo integral

Só Dez Por Cento é Mentira é um documentário poético sobre um poeta. Logo, afugentaria o público não afeito ao gênero e aguçaria a vontade de mergulhar na obra do biografado em questão – neste caso, o sulmatogrossense Manoel de Barros – aos mais aficionados. Nada, no entanto, é preto no branco quando falamos do poeta. A obra de Barros é tão rica e tão cotidianamente simples ao mesmo tempo, que até o menos entusiasta se derreterá com o estilo. Digo isso por experiência própria. Nunca me interessei por poesia, sempre preferi a prosa. Mas ao final do documentário assinado por Pedro Cezar, tive uma vontade imensa em descobrir mais da obra de Manoel de Barros. Quer resultado final melhor para um documentário tão desbiográfico? Isso sem contar os prêmios já recebidos, incluindo a distinção como Melhor Documentário no II Festival Paulínia de Cinema e no V Fest Cine Goiânia 2009.

Cezar é o roteirista, diretor e narrador do filme e, logo de início, conta sobre a dificuldade que teve para convencer o biografado a ceder uma pequena entrevista em vídeo. Barros não gosta de “traquitanas” que o gravem de improviso. “A palavra falada não tem rascunho”, já escreveu o poeta. Por isso, sempre que se sentiu obrigado a dar alguma entrevista, respondia com texto. Com o projeto praticamente sepultado pela recusa do biografado, Cezar não viu outro jeito senão desistir da empreitada – sem antes lamentar em frente ao poeta por não poder realizar seu sonho. Depois desta frase, Manoel de Barros aquiesceu. Talvez o sentimentalismo neste senhor de 93 anos tenha falado mais alto.

Durante a entrevista, Manoel de Barros afirma ser um homem que nunca saiu da infância. No entanto, demonstra uma sabedoria ímpar para uma eterna criança. Sempre humilde, e até desdenhoso do seu trabalho, Barros fala da importância que a poesia tem em sua vida, de como as palavras lhe chegam e tantos outros devaneios poéticos que lhe surgem à mente durante o bate-papo com Pedro Cezar.

“Ele é um poeta em tempo integral”, afirma seu irmão, Abílio, em uma das passagens do documentário. Além dele, são entrevistados a esposa, seus filhos, amigos e artistas renomados que beberam na fonte da poética de Manoel de Barros. Dentre eles, o falecido jornalista Fausto Wolff, o cineasta Joel Pizzini, a poetisa e atriz Elisa Lucinda, entre vários outros. Durante a narrativa, todos são tratados apenas pelo primeiro nome, como se fizessem parte de uma grande conversa informal sobre a importância da obra do biografado.

O longa-metragem é todo permeado por frases do poeta. “Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”, poema que dá nome ao filme, é apenas um entre tantos petardos que Manoel de Barros já escreveu em mais de 20 livros. Além das frases e dos depoimentos, são montadas pequenas esquetes homenageando a obra do autor, como o ator Paulo Gianini, que faz as vezes de inventor de desobjetos estranhosos como o esticador de horizontes, o prego de várias cabeças, todos saídos da cabeça criativa do poeta sulmatogrossense.

Por conseguir fazer jus à obra de Manoel de Barros, sendo reverente a tal ponto de não colocar a história do homem em frente ao poeta, Pedro Cezar faz de Só Dez Por Cento é Mentira um excelente documentário, aguçando no espectador a vontade de conhecer a fundo a obra do biografado. Mantendo-se poético, mas também informativo, o longa-metragem do cineasta é um bom ponto de partida para quem quer conhecer uma figura rara como este artista. Mesmo que, segundo ele, o espectador acabe encontrando mais escombros do que homem. Mais uma invenção (ou talvez mentira) de um grande poeta.

Só Dez Por Cento é Mentira
Dir.: Pedro Cezar
Cotação Paradoxo: Vale 98% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Só Dez Por Cento é Mentira:

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