segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Hora do Pesadelo

One, Two, Freddy’s Coming for You

Confesso que nunca fui um grande fã de Freddy Krueger. Talvez até por nunca ter dado chance ao serial killer. Só havia assistido a alguns trechos de filmes aqui e acolá, quando passavam na televisão. Sou de uma época que A Hora do Pesadelo - ou qualquer continuação – passava no horário da tarde, no SBT. Enfim, nunca tive paciência para conferir nada na íntegra do assassino imortalizado por Robert Englund – salvo o divertido Freddy VS Jason. No entanto, ao saber que o remake do clássico de Wes Craven estava por vir, resolvi conferir o primeiro longa-metragem, lançado em 1984. E não me arrependi. Um ótimo filme de terror, com boas cenas sangrentas e um vilão icônico em sua gênese. Pena que o mesmo não pode ser dito de sua refilmagem, produzida 26 anos depois da original.

Com roteiro assinado por Wesley Strick (de A Casa de Vidro) e por Eric Heisserer (do ainda inédito remake de A Coisa), baseado livremente em personagens e situações criadas por Wes Craven, este novo A Hora do Pesadelo tem o clipeiro Samuel Bayer como diretor. A ficha corrida do cineasta no quesito videoclipes é empolgante. Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, No Rain, do Blind Melon, Zombie, do Cramberries, Anybody Seen My Baby, dos Rolling Stones, American Idiot, do Green Day. Todos trabalhos interessantes dentro do seu métier. Mas como bem sabemos, clipes não são filmes. E segurar a atenção do espectador por mais de cinco minutos, sem a música da sua banda favorita para ajudar, é realmente complicado.

Na trama, jovens começam a sonhar com uma figura misteriosa, com uma luva cheia de lâminas pontiagudas, o rosto desfigurado e um suéter vermelho e verde. Os pesadelos, cada vez mais reais, começam a literalmente matar qualquer um que tenha o azar de dormir e encontrar com aquele monstro. É o que diria Dean Russel (Kellan Lutz, de Crepúsculo) caso ainda estivesse vivo. Seu pesadelo foi tão real que Dean acabou tirando sua própria vida em frente a uma atônita amiga, Kris (Katie Cassidy, do seriado Melrose Place). Ela também passa a sonhar com aquela figura misteriosa, assim como seus amigos Nancy (Rooney Mara, do ainda inédito no Brasil Juventude em Revolta), Quentin (Kyle Gallner, o Flash do seriado Smallville) e Jesse (Thomas Dekker, o John Connor do seriado Terminator: The Sarah Connor Cronicles). Mal eles sabem que quem assombra suas noites de sono é Freddy Krueger (Jackie Earle Haley, de Watchmen), uma figura que não descansará enquanto não causar um grande terror nos habitantes da rua Elm.

É sempre difícil retrabalhar uma figura icônica quanto Freddy Krueger, mas acredito que Earle Haley consegue sair-se bem nos sapatos – e luvas – que foram de Robert Englund. Sua interpretação do vilão está muito mais próxima do primeiro longa-metragem, de 1984, no qual Freddy ainda era um assassino extremamente sério e assustador – e não o sarcástico que viria a ser nos próximos filmes da série. Para os fãs deste Krueger mais diabolicamente engraçado, o remake será um banho de água fria. No entanto, para quem espera ver um antagonista com real sede de sangue, sem tempo para contar piadinhas, talvez este seja um retrato mais próximo. Haley capricha na voz cavernosa e até solta algumas tiradas irônicas.

O que acabou atrapalhando o ator foi a construção do personagem pelos efeitos especiais. Na tentativa de compor um vilão que aparentasse ser realmente uma vítima de um incêndio, os produtores extrapolaram a linha, criando uma figura que está mais para uma mistura de Mason Verner (personagem de Gary Oldman em Hannibal) com o Duas Caras de Batman – O Cavaleiro das Trevas. Com aquela pesada maquiagem, Haley ficou totalmente inexpressivo – contrariando o que o clássico Freddy Krueger tinha de melhor sobre seus concorrentes mascarados Jason Voorhees e Michael Myers: as caras e bocas de Robert Englund.

Por falar em caras e bocas, o elenco jovem de A Hora do Pesadelo sabe basicamente fazer isso. Com exceção de Rooney Mara e Kylle Gallner, que defendem bem seus papéis, todos os outros estão muito abaixo do aceitável, até para películas de terror – que, convenhamos, não são conhecidas por suas atuações shakespearianas. O elenco mais experiente conta com uma pequena participação de Clancy Brown (o Kelvin, do seriado Lost) e de Connie Britton (a Nikki, da saudosa sitcom Spin City). Como é possível notar, o pessoal responsável pelo casting de A Hora do Pesadelo resolveu fazer um apanhado geral de vários rostos televisivos. Não foi muito feliz em muitos casos.

O diretor Samuel Bayer, como comentado acima, teve uma carreira bastante prolífica no vídeo clipe, mas estréia como cineasta de longas-metragens com este remake. Apesar de caprichar no visual do filme – fato recorrente em suas obras musicais – o andamento de A Hora do Pesadelo deixa muito a desejar. Em certos momentos, os bocejos estavam vencendo a batalha. Péssimo para um filme que precisa fazer com que a última coisa que o espectador deseje seja dormir.

Fato é que, afora algumas mudanças pequenas em alguns personagens, e a inclusão de assuntos em voga hoje em dia como a pedofilia e os remédios inibidores do sono, este remake é uma mera cópia do primeiro, de 84, sem muito que acrescentar ao gênero de horror. Muito melhor é assistir aos originais e deixar Freddy descansar em paz, decapitado, estrangulado, envenenado, esquecido ou qualquer outra forma letal que já tenha sido utilizada em outros filmes da série. Wes Craven, criador do personagem e diretor do longa original, certamente agradeceria.

A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street)
Dir.: Samuel Bayer
Com Jackie Earle Haley, Rooney Mara, Kylle Gallner, Katie Cassidy, Thomas Dekker, Kellan Lutz, Connie Britton e Clancy Brown
Cotação Paradoxo: Vale 45% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado do remake de A Hora do Pesadelo:



E compare com o trailer original, de 1984:

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