Apesar de ter um lugar reservado no coração de vários cinéfilos que viveram sua infância nos anos 80, o Fúria de Titãs original, dirigido por Desmond Davis, está longe de ser um grande filme. Tem bons momentos, a presença de atores renomados como Lawrence Olivier (de Rebecca – A Mulher Inesquecível), Maggie Smith (de Otelo) e Burgess Meredith (o eterno Pinguin do seriado sessentista Batman) e, claro, o trabalho de Ray Harryhausen, um verdadeiro mago dos efeitos especiais, que, muitos antes dos computadores tomarem conta da indústria, conseguia criar seres fantásticos com o advento do stop motion. Mas, como um todo, o filme pecava pelo ritmo truncado e por atuações risíveis do resto do elenco.
Passados 29 anos, Fúria de Titãs ganha um remake pelas mãos do diretor francês Louis Leterrier (de O Incrível Hulk), com grandes cenas de ação, efeitos especiais de primeira e... ainda capenga narrativamente. As situações mudaram, os vilões são diferentes, a motivação de Perseu é outra, mas nada consegue salvar o longa-metragem do desastre. Nem a escalação de ótimos atores para papéis capitais, como Liam Neeson e Ralph Fiennes (que repetem o antagonismo de A Lista de Schindler), tira deste novo Fúria de Titãs aquele gosto de espetáculo visual sem conteúdo algum. O roteiro é assinado por Travis Beacham (de Dog Days of Summer) e pela dupla Phil Hay e Matt Manfredi (de O Terno de Um Bilhão de Dólares), baseado no script do filme de 1981 de Beverly Cross. Conhecemos Perseu, o herói da história, ainda bebê, semideus, filho de Zeus (Neeson) com uma humana, a rainha de Argos. Enfurecido pela gravidez da esposa, o rei Acrisius (Jason Flemyng, de O Curioso Caso de Benjamin Button) decide pela execução da mulher e do filho bastardo, os atirando ao mar dentro de uma caixa. Perseu e a mãe, já falecida, são encontrados por uma família de pescadores, que acolhe o bebê e o cria como um filho.
Já adulto, Perseu (Sam Worthington, de Avatar) perde os pais devido a fúria do deus Hades (Fiennes), que convence seu irmão Zeus de que os humanos estão perdendo a fé e devem ser punidos. Não bastasse isso, o deus das trevas faz um ultimato ao povo de Argos. Ou a princesa Andrômeda (Alexa Davalos, de O Nevoeiro) é sacrificada ou o temível Kraken destruirá toda a cidade. Nunca homem algum venceu a besta marítima, portanto Perseu, um semideus, é logo encarregado de derrotar o monstro. Para tanto, ele parte para uma jornada perigosa, na tentativa de achar algum artifício que dê fim ao Kraken.
O primeiro problema de Fúria de Titãs reside em seu protagonista, Perseu. Interpretado com cenho sempre fechado por Sam Worthington, o herói da história é terrivelmente enfadonho. Sua jornada de vingança contra os deuses e sua tentativa de vencer os obstáculos como um homem – e não um semideus – são características interessantes e dão uma profundidade ao personagem. Mas a performance sempre sisuda de Worthington depõe contra o próprio Perseu. Em dado (e único) momento, o herói fala uma gracinha com seus companheiros e se vira para o emburrado Draco (Mads Mikkelsen, de Casino Royale) lhe perguntando: “você nunca sorri?” Isso denota apenas duas possibilidades: ou os roteiristas haviam imaginado um herói mais leve e o ator partiu para outro caminho, totalmente contrário; ou Perseu não enxerga que ele próprio não havia sorrido até então e seria no mínimo incoerente cobrar comportamento diferente de seus companheiros. Acredito que a primeira opção é a mais correta. Fora o fato de que o próprio ator, em entrevistas, vem dizendo que Fúria de Titãs não deve ser levado a sério, sendo apenas uma aventura escapista. Mas não é o que parece pela seriedade das atuações.
Além disso, até excelentes atores como Liam Neeson, Ralph Fiennes e Danny Huston (relegado a uma ponta, pensando obviamente em uma sequência) estão totalmente engessados pelos figurinos tenebrosos criados pela equipe de Louis Leterrier. A direção de arte do filme é digna de escola de samba, com as “fantasias” de Zeus e Poseidon com grande potencial para servir de destaque para o carro abre-alas da Portela.
Algumas cenas de ação têm certo apuro técnico – e esta deve ser a maior contribuição do diretor Louis Leterrier – como os escorpiões gigantes e a batalha contra a Medusa. No entanto, a tão alardeada batalha final contra o Kraken consegue ser mais rápida e anticlimática que qualquer episódio ruim de Smallville - seriado conhecido por desperdiçar vilões em enfrentamentos pouco desafiadores. Sem muita diversão, com um roteiro que regurgita a tradicional jornada do herói mitológico de Joseph Campbell, Fúria de Titãs é um programa bem abaixo da média. Mesmo assim, renderá pequenas fortunas ao estúdio Warner Bros. pela
Fúria de Titãs (Clash of the Titans)
Dir.: Louis Leterrier
Com Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Jason Flemyn, Gemma Arterton, Alexa Davalos, Mads Mikkelsen, Nicholas Hoult, Polly Walker, Pete Postlethwaite, Danny Huston
Cotação Paradoxo: Vale 30% do ingresso
Confira o trailer de Fúria de Titãs:
2 comentários:
Lamentavel que uma produçao deste porte o diretor tenha assassinado a mitologia grega com gafes desastrosas!!! Veja bem, Pégaso nunca foi um corcel negro alado, sempre foi relatado na mitologia como um cavalo alado branco como as nuvens, e mais, que outros cavalos alados eram aqueles? Pégaso era unico!!! E mais, como o cavalo alado aparece antes da morte da Medusa se ele é fruto do sangue da cabeça decapitada deste ser??? Sem comentarios né? Isso ja diz muito deste desastre de filme, entre outros erros infindaveis!!!
Nem entrei no mérito sobre as vexatórias "liberdades" do roteiro em relação à mitologia grega na crítica. Mas você está coberto de razão.
Postar um comentário