sexta-feira, 28 de maio de 2010

Em Teu Nome

Deixando o Pago

Em uma época em que o Supremo Tribunal Federal decidiu manter a lei da Anistia intacta e continuar perdoando todos aqueles que torturaram e violaram os direitos humanos durante a Ditadura Militar, chega em boa hora mais um filme brasileiro que retrata o período. Dirigido pelo cineasta gaúcho Paulo Nascimento (de Valsa para Bruno Stein), Em Teu Nome traz à tona o sofrimento de uma parcela da população que decidiu lutar contra um regime autoritário e pagou caro por suas escolhas.

Baseado em fatos reais, o roteiro de Paulo Nascimento é centrado no engenheiro Boni (Leonardo Machado, de A Casa Verde), rapaz de classe média que decide, junto de seus companheiros Professor (Nelson Diniz, de Sal de Prata), Lenora (Silvia Buarque, de Vereda Tropical), Onório (Marcos Verza, de Valsa para Bruno Stein) e Higino (Sirmar Antunes, de Netto Perde sua Alma), pegar em armas e enfrentar a Ditadura Militar. No entanto, as coisas não saem como o grupo esperava. Eles são capturados, torturados e, finalmente, exilados após o governo brasileiro ceder às exigências do grupo terrorista que sequestrou um embaixador suíço.

Em Teu Nome é o filme mais consistente do diretor Paulo Nascimento, com um roteiro interessante atrelado a boas atuações do elenco. Leonardo Machado é o protagonista e consegue carregar muito bem a trama, assim como seu “mentor” interpretado por Nelson Diniz. Sirmar Antunes, Marcos Verza e Silvia Buarque também contribuem com boas performances. Um dos destaques do elenco fica para o uruguaio Cesar Troncoso (de O Banheiro do Papa), que comove com seu abnegado personagem, Leo. Ele é cunhado de Boni e tenta ajudá-lo no que for necessário, sempre deixando bem claro que não é a favor da luta armada.

Com uma ótima fotografia assinada por Roberto Laguna, que consegue capturar muito bem os cenários por onde passam os personagens do filme (desde o Brasil, passando pelo Chile e França), Em Teu Nome é um deleite para os olhos. Uma pena que, por ser uma produção com orçamento apertado, é notável que as ruas estão sempre vazias e poucos carros passam em frente à câmera. Esta desertificação das locações é obviamente uma solução encontrada pela produção para que o filme não incorresse em anacronismos. Algumas soluções encontradas são bastante satisfatórias, como a profundidade de campo super iluminada em cenas na cidade grande, escondendo possíveis pistas de quando a trama foi realmente filmada.

Vitor Ramil aparece em uma ponta cantando sua bela canção Deixando o Pago, que agrega bastante a uma já bem pensada trilha sonora assinada por André Trento e Renato Müller. Um dos poucos senões de Em Teu Nome fica para a montagem de Marcio Papel. Quando o longa-metragem vai chegando ao terceiro ato, parece que o filme todo começa a correr com os acontecimentos, começando um vai e vem de fade in e fade out (as populares telas pretas que separam uma cena da outra) que tenta, ao que tudo indica, enxugar um filme que era bem maior no projeto inicial. Não chega a parecer que falta alguma coisa, mas fica bastante truncado um longa-metragem que toda a hora recorre para o fade para se manter coeso.

Em Teu Nome pode ter seus pontos fracos, mas é um trabalho interessante, que trata de um assunto relevante e que deve ser sempre lembrado. A Ditadura Militar foi um período tenebroso na história de inúmeros países na América Latina (e o filme consegue mostrar isso, estendendo sua história para o Chile) e merece sempre ser revisitada no cinema, no teatro, na literatura, para que as novas gerações não esqueçam. Mas, claro, nunca deve ser revisitada na vida real.

Em Teu Nome
Dir.: Paulo Nascimento
Com Leonardo Machado, Fernanda Moro, César Troncoso, Nelson Diniz, Silvia Buarque, Julia Feldens, Marcos verza, Sirmar Antunes, Gilberto Perin, Marcos Paulo, Eduardo Barril e Vitor Ramil
Cotação Paradoxo: Vale 78% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Em Teu Nome:

0 comentários: