quinta-feira, 13 de maio de 2010

Aproximação

Gaza

É sempre bom ver Juliette Binoche em cena. A atriz francesa tem um currículo invejável, já tendo trabalhado de forma irretocável com diretores do calibre de Jean-Luc Godard, Louis Malle, Krzysztof Kieslowski e Michael Haneke. Foi surpresa, portanto, encontrar a atriz tão deslocada em sua performance em Aproximação, longa-metragem assinado pelo cineasta israelense Amos Gitai. É bem verdade que o roteiro acaba não ajudando a atriz, que consegue convencer a partir de sua metade final, quando a trama encontra seu eixo. Mas até lá, o longa-metragem de Gitai requer paciência do espectador.

Com roteiro assinado pelo próprio diretor, junto de sua recorrente colaboradora Marie-Jose Sanselme, o filme é centrado em Ana (Binoche) e Uli (Liron Levo, de Strangers). Eles são meio-irmãos que acabaram de perder o pai, mas têm uma forma diferente de encarar este falecimento. Ana parece radiante com a morte do velho, enquanto que Uli sempre se mostra taciturno em relação a isso. Ao tentar forjar o testamento, Ana conhece a advogada do pai, Françoise (Jeanne Moreau, do clássico Jules e Jim), que lhe informa que existe apenas uma herdeira para todos os bens: Dana (Dana Ivgy, de Jaffa), neta do falecido que fora abandonada por Ana ainda pequena e que, atualmente, mora em Gaza.

Agora, Ana precisa encontrar sua filha, mesmo que precise entrar em Gaza em um momento bombástico: a desocupação dos residentes israelenses. Uli faz parte da equipe que deverá retirá-los e, nesse meio tempo, tentará ajudar sua irmã a entrar em Gaza. Mas as dificuldades podem ser maiores que as previstas.

Amos Gitai adora deixar sua câmera em cima dos atores, elaborando grandes planos-sequência, com algumas ótimas soluções de enquadramentos. Em Aproximação, esta preferência continua intacta. O prólogo, que nos mostra o encontro de Uli com uma viajante palestina, é todo contado em uma grande tomada ininterrupta. Em outras boas cenas, como a do funeral ou do reencontro entre mãe e filha, a câmera se mantém sempre ligada, capturando cada momento, sem cortes. Por um lado, este recurso nos transporta para a cena. Como se estivéssemos dentro do conflito, por exemplo, se formos observar a desocupação de Gaza. Por outro, deixa o filme com um ritmo bastante lento, o que pesa bastante em sua primeira metade.

É nesta parte, aliás, que Binoche tem uma atuação caricata, tentando dar vida a uma personagem fútil e desinteressante. Foi estranho assistir a bela atriz francesa tão deslocada em um papel. Depois da leitura do testamento, Binoche parece finalmente se encontrar, dando um show ao chegar a Gaza. Já seu parceiro de tela, Liron Levo, consegue uma boa performance durante todo o filme. Talvez por ter pego um personagem mais reservado, o ator tenha levado vantagem por não precisar arriscar tanto quanto Binoche.

Por demorar tanto em chegar ao que interessa, Aproximação acaba cansando no seu início. Felizmente, em sua segunda metade, o longa-metragem ganha uma injeção de ânimo. Muito por causa da jornada de Ana à procura de sua filha, carregada de culpa e remorso.

Aproximação é um bom drama, que carece da cumplicidade do espectador para transpor a lenta primeira metade. Depois disso, somos brindados com a boa história de uma mulher perseguindo seus demônios e a visão de Gitai sobre mais um momento sofrido do povo hebraico, com cenas caóticas, que prendem o espectador pela total crueza.

Aproximação (Disengagement)
Dir.: Amos Gitai
Com Juliette Binoche, Liron Levo, Jeanne Moreau, Barbara Hendricks, Dana Ivey, Hiam Abbas
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer de Aproximação:

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