Mesmo tendo gostado de Do Inferno (2001), filme mais recente dos irmãos Allen e Albert Hughes, não fui com grandes expectativas à sessão de O Livro de Eli. O assunto não parecia interessante o suficiente e, de acordo com o trailer, seria muito mais um thriller aventuresco sem muito papo e com muita ação. Ledo engano. O longa-metragem não é a oitava maravilha do mundo, mas também não é descartável como pensava. É um bom filme de ação, com uma temática pretensamente profunda e com dois atores competentes encabeçando o elenco: Denzel Washington e Gary Oldman.
O roteiro, assinado pelo estreante Gary Whitta, toma emprestado alguns conceitos do gênero western e os mistura com sagas pós-apocalípticas. Portanto, temos em Denzel Washington o forasteiro, o lobo solitário que chega à cidade do “coronel” inescrupuloso, vivido por Gary Oldman, e que terá de pagar muito caro por cruzar o seu caminho. A principal diferença entre um faroeste e este O Livro de Eli é que cowboys e índios não dão as caras. Em vez deles, temos saqueadores, canibais e assassinos habitando o desolado cenário terroso do que restou do mundo que conhecemos.
A trama se passa 30 anos depois de uma guerra de proporções gigantescas, que acabou transformando a Terra em um lugar inabitável por um longo tempo. Encontramos uma população sem princípios éticos, sem noção de como viver em sociedade e sem qualquer vestígio de humanidade. Neste cenário conhecemos Eli (Washington), um andarilho que possui uma missão muito clara: deve chegar ao oeste de qualquer forma para encontrar o lugar correto para deixar o livro sagrado que ele carrega e que lê todos os dias, religiosamente. Em seu caminho, está Carnegie (Oldman), homem que procura por este livro há anos, sem sucesso algum. Quando a sua jornada se cruza com a de Eli, Carnegie não tem dúvidas de que aquele livro é seu objeto de desejo. Agora, este poderoso homem fará de tudo para arrancar o artefato das mãos de Eli, lhe oferecendo água e mulheres – dentre elas, a escrava Solara (Mila Kunis), que acaba se afeiçoando pelo andarilho – ou a morte, caso ele não entregue o livro de bom grado. O problema é que Eli é mais poderoso do que aparenta e não se entregará facilmente.Não é preciso ser um gênio para entender a mensagem de O Livro de Eli, até porque ela é óbvia demais para não ser compreendida. Esse é um dos problemas do novato Gary Whitta, autor do roteiro. Ele não consegue deixar nada nas entrelinhas. Tudo é soletrado para o espectador, como se o público não tivesse ferramentas para entender a trama. Ao assistirmos o longa-metragem, conseguimos entender que a real jornada de Eli não é apenas entregar o livro em segurança. É restituir sua humanidade, recobrar sua antiga consciência de que é importante ajudar o próximo entre tantas outras lições que são retiradas da Bíblia. Mas o roteirista não pode apenas deixar que o espectador entenda se a lição foi aprendida ou não. Ele precisa colocar o personagem dizendo com todas as letras. Isso tira um pouco do prazer de assistir a O Livro de Eli.
Fora essas escorregadelas, o longa-metragem tem vários méritos que são valiosas surpresas. A começar pela fotografia, assinada por Don Burgess (indicado ao Oscar por Forrest Gump), que carrega no marrom e nos tons escuros para criar uma realidade totalmente saturada. O sol, naquele mundo, acabou fritando a paisagem e a visão de muitos dos sobreviventes. Portanto, a escolha deste tipo de fotografia não só deixa o filme com um visual diferente, mas também conversa totalmente com a temática do roteiro. A câmera também surpreende por alguns planos-sequência de difícil execução, como o momento em que Eli luta, no escuro, contra cinco saqueadores. A cena é belíssima – e ao mesmo tempo, violenta – por enxergarmos apenas a silhueta dos envolvidos nesta “dança”.
Quanto ao elenco, Denzel Washington é um ator que acrescenta bastante ao carisma de Eli na telona. Sempre bastante focado em sua missão, seu personagem carrega a certeza de que é um homem que trilha este longo caminho por um propósito maior. Isso, no entanto, acaba o desligando de sua humanidade. Em uma sequência pouco usual, vemos o nosso herói negar socorro a pessoas em perigo no meio de sua jornada. Quando qualquer outro destemido protagonista prestaria ajuda, ele se mantém totalmente absorto em sua incumbência. Até, claro, conhecer a jovem Solana, que resgata um pouco da humanidade de dentro do andarilho. Mila Kunis faz o papel do espectador dentro da história, fazendo as perguntas certas para que o público entenda melhor o entorno da trama. É salutar que um filme de Hollywood consiga largar do cansado recurso da narração para contextualizar os acontecimentos. Nos primeiros minutos de projeção, acompanhamos os passos de Eli sem nenhum diálogo e sem que ele precise falar consigo mesmo para passar informações ao espectador. Isso cria um ar de expectativa na platéia, que não sabe ao certo o que aconteceu, e um ótimo clima de suspense.
Para todo mocinho, existe um antagonista. E fazia tempo que não via Gary Oldman como vilão. Depois de ter se especializado em fazer personagens malucos e vilanescos, o ator passou uma temporada se divertindo com papéis mais sadios – digamos assim – como o tio de Harry Potter, Sirius Black, na saga do bruxinho britânico e, claro, como Jim Gordon nos dois filmes do Homem-Morcego dirigidos por Christopher Nolan. Em O Livro de Eli, Oldman retorna à velha forma interpretando um homem que conhece o poder da Bíblia e que sabe que, apoderando-se de seus ensinamentos, poderá dominar a cabeça dos fracos à sua volta, lhe trazendo muito poder. Em um papel que poderia ser completamente desinteressante nas mãos de qualquer outro ator, Oldman consegue fazer frente ao messiânico Eli de Denzel Washington.
Com algumas boas cenas de ação, e uma participação irreverente dos veteranos Michael Gambon e Frances de La Tour, O Livro de Eli carrega nas tintas em sua mensagem salvadora, mas consegue ser um bom entretenimento em suas duas horas de projeção. O desfecho surpreendente agrega alguns pontos a mais no resultado final. Acostumado que estou a notar artimanhas de roteiristas a fim de pegar o espectador no contrapé, devo confessar que fui surpreendido com a reviravolta do longa-metragem dos irmãos Hughes. Imaginava outro tipo de desfecho. Foi bom sair do cinema com aquela sensação. Fez com que outras passagens do filme fizessem mais sentido pensando em retrospecto, algo que você, leitor, provavelmente fará ao assistir O Livro de Eli.
O Livro de Eli (The Book of Eli)
Dir.: Allen e Albert Hughes
Com Denzel Washington, Gary Oldman, Mila Kunis, Jennifer Beals, Michael Gambon, Frances de la Tour, Ray Stevenson e Tom Waits
Cotação Paradoxo: Vale 73% do ingresso
Confira logo abaixo o trailer legendado de O Livro de Eli:
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