Oscar

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quarta-feira, 3 de março de 2010

Il Divo

Nosferatu italiano

O filme italiano Il Divo foi uma das surpresas nas indicações do Oscar 2010. Figura em apenas uma categoria, Melhor Maquiagem, ao lado do blockbuster Star Trek e do belo longa britânico A Jovem Rainha Vitória. Agora, quem pensa que o filme é interessante apenas pela sua maquiagem, deve pensar de novo. Com jogos de câmera estilosos e edição caprichada, o filme assinado pelo cineasta Paolo Sorrentino é um colírio para os olhos. O diretor sabe muito bem como utilizar sua câmera e faz planos difíceis, sempre com maestria. Atrelado às criativas legendas que nos apresentam os personagens, que se movem de acordo com o movimento da câmera, temos um moderno filme sobre a política italiana.

O roteiro, assinado pelo próprio diretor, conta um recorte da vida do ex-primeiro-ministro da Itália, Giulio Andreotti (Toni Servillo), homem que já ocupou esta função no governo italiano por seis vezes no passado e retoma o trabalho no iníico dos anos 90. Seu grande desejo é tornar-se presidente do país e junto de seus cupinchas, tenta emplacar uma candidatura para o cargo. No entanto, a situação não está muito boa para o lado de Andreotti, que é indiciado por envolvimento com a máfia e deverá se defender destas acusações.

O grande problema de Il Divo é que o filme não funciona tão bem para quem não conhece a política italiana. Tenho certeza que é de uma temática ímpar para habitantes da Itália ou para quem tem um interesse acima da média em política internacional. Mas não funciona para quem é leigo no assunto. O filme tenta contextualizar o espectador em alguns termos mais específicos e temos um panorama geral de como funcionava os bastidores do poder da Itália no início da década retrasada. Mas uma visão mais profunda do caso só é possível tendo um conhecimento prévio de causa. Fazendo uma comparação porca, seria o mesmo que tentar exportar um filme sobre algum caso de CPI brasileiro e ficar apenas no tema. Seria interessante para alguém? Fora os cidadãos brasileiros, acho difícil.

Se a temática é um pouco estanque, temos ao menos um belo filme no que tange a técnica. Como já mencionei, as câmeras são embasbacantes e a edição funciona muito bem. É possível notar também algumas influências cinematográficas em alguns trechos do filme, como Cães de Aluguel, na cena na qual conhecemos os correligionários de Giulio Andreotti, com seus ternos, gravatas e andando em câmera lenta, ou Os Intocáveis, com Andreotti tendo sua barba escanhoada, lembrando muito a cena de abertura de Al Capone no filme de Brian de Palma. A referência é ainda mais interessante visto que Andreotti é acusado de ligação com a máfia mais adiante na trama – e a abertura sangrenta do filme, ao som da dupla francesa Cassius, é ambígua por não deixar claro se tudo aquilo aconteceu a mando do primeiro-ministro ou não.

A interpretação de Toni Servillo como Giulio Andreotti é bastante imponente – e surpreendente, visto que o político não é lá muito alto, tem corcunda e se movimenta como o Nosferatu do filme homônimo de F. W. Murnau. Seu poder não está em sua forma física, mas sim em sua influência. Apenas o fato de sua “corrente” de parceiros contar com os mais variados tipos de autoridades – religiosas, inclusive – fazem dele um sujeito bem relacionado. Sua forma inexpressiva de falar com qualquer um que lhe dirija a palavra é uma prova de sua frieza quanto suas relações pessoais. Nem com a esposa Andreotti consegue ser caloroso. Uma figura realmente excêntrica, que até hoje está envolvido na política italiana, diga-se.

Com uma trilha sonora que passeia pelo clássico (Vivaldi, Camille Saint-Säens) e pelo moderno (The Veils, Cassius, Beth Orton), Il Divo é um filme, no mínimo, diferente. Tem qualidades, mas deixa a desejar pelo tema hermético que apresenta. Ao menos, o diretor parece partilhar com Andreotti seu senso de humor, fato que o personagem destaca ter, mesmo nunca parecendo se divertir com quase nada que lhe acontece. Só isso explica a música Da Da Da, do Trio, encerrar a película. Isso e, claro, o fato de na política, tudo acabar em pizza. Pensando bem, a política italiana, no fim das contas, nem é tão diferente da nossa.

Maratona Oscar: Il Divo foi indicado a um Oscar: Melhor Maquiagem. O uso da maquiagem neste filme é bem menos evidente do que em Star Trek, por exemplo. Isso pesa ao seu favor, por ser praticamente invisível. Mesmo assim estou inclinado a apostar no blockbuster de J.J. Abrams.

Il Divo
Dir.: Paolo Sorrentino
Com Toni Servillo, Anna Bonaiuto, Giulio Bosetti, Flavio Bucci, Carlo Buccirosso, Giorgio Colangeli, Alberto Cracco, Piera Degli Esposti
Cotação Paradoxo: Vale 64% do ingresso

Confira o trailer de Il Divo:

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