quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um Homem Sério

Paciência de Jó

Coisas boas acontecem a pessoas boas? Não necessariamente. Se formos levar em conta Um Homem Sério, novo longa-metragem dos irmãos Ethan e Joel Coen, o contrário pode ser totalmente verdadeiro. Baseado livremente na história bíblica de Jó – homem de fé que sofreu as maiores desgraças e nunca virou as costas para Deus – este novo trabalho requer do espectador uma paciência condizente com a do personagem principal. Pouca coisa de muito empolgante acontece no filme, salvando-se a atuação corretíssima do pouco conhecido Michael Stuhlbarg. Os irmãos Coen parecem se divertir à beça contando a história deste “homem sério”, que começa a questionar as fundações do seu caráter. Infelizmente, o divertimento dos cineastas não conseguiu me contagiar.

Na trama, assinada por Ethan e Joel Coen e ambientada nos anos 60, conhecemos o professor judeu Larry Gopnik (Stuhlbarg) e sua família disfuncional. Sua esposa, Judith (Sari Lennick), o está deixando para ficar com um vizinho viúvo, Sy Ableman (Fred Melamed); Seu filho, Danny (Aaron Wolff), está mais preocupado em fumar baseados do que em realizar seu Bar Mitzvah; Sua filha, Sarah (Jessica McManus), pensa apenas em seu cabelo e rouba dinheiro da carteira do pai para uma plástica no nariz; Seu irmão, Arthur (Richard Kind), está morando de favor em sua casa, ocupando o banheiro por horas e escrevendo teorias explosivas em um caderno; Não bastasse esse turbilhão de situações em casa, no colégio, a vida de Larry não é lá muito gratificante. Um de seus alunos tenta suborná-lo para aumentar suas notas enquanto sua sonhada promoção pode pular pela janela devido a cartas anônimas desabonadoras enviadas à direção. A forma como Larry encara todos estes problemas é o que faz a história andar.

Antes disso, é importante dizer, somos apresentados a uma pequena história ambientada em um período anterior, no qual acompanhamos a chegada de um homem a sua casa e a possível presença de um Dybbuk (um espírito do mal no folclore judaico) em sua residência. Este prólogo não tem ligação alguma com o resto do filme, sendo mais uma espécie de resumo dos temas que veremos a seguir, como a fé cega em uma crença e as conseqüências que atitudes baseadas nestas certezas podem gerar. O filme abre com a frase de Rashi, rabino importantíssimo para religião judaica: “Receba com simplicidade tudo o que acontecer com você”. Outro resumo do que veremos a seguir no filme – e, claro, uma tiração de sarro dos irmãos Coen, que fazem seu protagonista sofrer o pão que o diabo amassou.

O grande problema no roteiro de Um Homem Sério é a falta de momentos cômicos em uma pretensa comédia. Isso, claro, pode ser culpa não só do texto, mas das referências de cada espectador. Talvez o fato de eu não ser um grande conhecedor do judaísmo tenha me deixado de fora de muitas referências que poderiam ser engraçadas. Acredito que isso resume bem o meu sentimento quanto ao filme. Senti-me sempre de fora daquele círculo, observando de muito longe tudo o que acontecia. Portanto, tive dificuldades em curtir a jornada de Larry e seus inúmeros problemas. Eu adoro o chamado “humor judeu” e sou capaz de dizer que na lista de meus comediantes favoritos, certamente a maioria são de origem judaica. No entanto, não consegui entrar no clima cômico proposto pelos irmãos Coen.

Apesar dessa distância clínica com a história, ainda é possível notar qualidades em Um Homem Sério. Por exemplo, é inegável que Michael Stuhlback tem uma louvável performance. Desde seu jeito inseguro em falar, até sua postura pequena frente a pessoas que lhe causam mal, como é o caso do amante de sua mulher, são retratadas de forma ímpar pelo ator. Stuhlback parece ficar retraído o máximo que pode para viver o professor Larry Gopnik e, certamente, receberá muitos convites depois de sua participação no filme de Ethan e Joel Coen. Destaco as pequenas pontas de ótimos atores, como George Wyner, vivendo um rabino cheio de parábolas sem sentido, e do promissor Simon Helberg (conhecido pelo seu papel amalucado no seriado The Big Bang Theory), como um jovem rabino sem muita segurança no que dizer.

O feliz retorno do diretor de fotografia preferido dos irmãos Coen, Roger Deakins (que havia abandonado o posto em Queime Depois de Ler depois de ter trabalhado em dez produções com os cineastas) já é uma garantia de um visual diferenciado para Um Homem Sério. Deakins resolve inverter a lógica e imprimir tristeza e melancolia na imagem daquelas casas suburbanas com gramados verdejantes, cenário american way of life por excelência. Soma-se isso à interessante edição assinada por Roderick Jaynes (pseudônimo usado pelos irmãos Coen), que apresenta alguns momentos fascinantes em seus paralelos com situações que envolvem Larry e seu filho, ou Larry e seu vizinho, Sy, e Um Homem Sério tem apuros técnicos suficientes para entreter qualquer um.

Uma pena que mesmo com qualidades significativas, o filme não tenha conseguido cativar. Sou um apreciador das obras dos cineastas e me divirto até com trabalhos menores, como O Amor Custa Caro e Matadores de Velhinha. Mas desta vez, os momentos cômicos, se é que existem, ficaram escondidos. Talvez eu os procure com mais afinco no futuro.

Maratona Oscar: Um Homem Sério foi indicado a dois Oscar: Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Não deve levar nenhum. Só não me surpreendo pela indicação ao prêmio principal porque sei que os votantes da Academia adoraram os irmãos Coen. Mas não tanto para lhes dar quaisquer destes prêmios neste ano.

Um Homem Sério (A Serious Man)
Dir.: Ethan e Joel Coen
Com Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Aaron Wolff, Fred Melamed, Sari Lennick, Jessica McManus, Peter Breitmayer, George Wyner, Simon Helberg, Amy Landecker, David Kang e Adam Arkin
Cotação Paradoxo: Vale 60% do ingresso

Confira o ótimo trailer legendado de Um Homem Sério:

Um comentário:

Uziel Santos disse...

Acho que vc não pegou a essência do filme. O foco aqui não é ser comédia. É um filme pessimista para pessoas pessimistas.

Tanto é que quem gostar de The Blind Side, provavelmente não gostará desse, vice-versa.