Sentado em frente à escrivaninha do gabinete do delegado, Pigoil (Gérard Junot) espera para contar sua versão dos fatos. Longe de ser um sujeito violento, sua situação não é das melhores: é acusado de assassinato. “Ele não tem cara de assassino”, observa o chefe de polícia. Realmente. Nas próximas horas, Pigoil contará os eventos que lhe fizeram chegar até aquele lugar. Uma história que envolve a paixão pelo teatro, o amor por um filho e toda a ebulição da Paris nos anos 30. Assim começa Paris 36, um drama musical dirigido por Christophe Barratier.
A França passava por um período de depressão em 1935 e a casa de shows Chansonia era o ganha pão de artistas e apaixonados pelo show business. É o caso de Pigoil, casado com uma dançarina e pai do pequeno Jojo (Maxence Perrin); do comediante Jacky Jacquet (Kad Merad); e do revolucionário Milou (Clovis Cornillac). Na última noite do ano de 35, Pigoil descobre que estava sendo traído pela mulher e o inescrupuloso Galapiat (Bernard-Pierre Donnadieu) procura o dono do Chansonia para coletar uma dívida, débito esse que será pago com o próprio estabelecimento. Todos ficam sem emprego e entram 1936 em situação desesperadora. Quatro meses depois, a guarda de Jojo é tirada de Pigoil por ele não poder arcar com a educação do garoto. Sem emprego, ele resolve tomar de volta o Chansonia à força, fazendo um acordo com Galapiat. Este tem uma agenda diferente de interesses, tentando ser mais amigável com os que o cercam. E, claro, pretende ganhar a simpatia da bela jovem Douce (Nora Arnezeder), que se mostra uma excelente cantora e ótima inclusão para o decaído Chansonia.
O grande destaque de Paris 36 acabou sendo o motivo que me levou a vê-lo: a música. Indicado ao Oscar na categoria Melhor Canção Original, pela faixa Loin de Paname, o longa-metragem tem seus melhores momentos em cima do palco, quando algum de seus personagens está lá a cantar. Nora Arnezeder, responsável pela voz da música principal do filme, e de outras como Enterrée Sous Le Bal e Chiqué, tem um alcance vocal invejável e cativa pela sua interpretação da jovem Douce. É bem verdade que sua personagem não é lá muito desenvolvida. Sabemos pouquíssimo sobre ela. Diferente do trio principal, formado por Pigoil, Jacky e Milou. Cada um tem características bem destacadas, entendemos suas atitudes e sentimos pela sua jornada. A fotografia, assinada por Tom Stern (usual colaborador de Clint Eastwood), é digna de elogios pela sua capacidade em distinguir cada um dos momentos do filme pela luz. Temos os trechos soturnos, quando os personagens estão em tempos difíceis – como o início de Pigoil, perdido na bebida – e os períodos iluminados – com a belíssima cena dourada do restaurante chique no qual Douce e Galapiat fazem sua refeição.
O roteiro, assinado pelo diretor com o auxílio de Julien Rappeneau e Pierre Phillippe, baseado em idéia original de Frank Thomas, Reinhardt Wagner e Jean-Michel Derenne, tem altos e baixos em seus 112 minutos de duração. Como já citado acima, o papel principal feminino é pouco desenvolvido e só diz a que veio através da música. O vício na bebida de Pigoil é esquecida rapidamente, como se fosse realmente fácil largar a adição na bebida. Fora o fato que a história moldura, o fato de Pigoil estar na delegacia de polícia contando sua história, é também deixado de lado por boa parte da trama. O fato de sabermos que o personagem está sendo acusado de um crime acaba tirando a força de um momento chave da história, na qual ele decide pular do alto do Chansonia, devido a desilusão que teve quanto a reabertura do local. Está claro que nada acontece a ele, já que tivemos um flash de seu futuro logo no início da trama.
Felizmente, nada disso faz com que Paris 36 perca suas qualidades como um ótimo entretenimento. Mostrando a situação da depressão na França, a vida nos subúrbios e a ascensão ao poder da Frente Popular em 1936, o longa-metragem é um interessante retrato de uma época que é pouco conhecida pelo público em geral. Some-se isso ao poder da música francesa (é impar a vontade de ouvir a trilha sonora do filme logo depois do seu término) e temos um ótimo longa-metragem.
Maratona Oscar: Paris 36 foi indicado a um Oscar: Melhor Canção Original (Loin de Paname). Apesar de ser ótima, deve perder para a favorita da noite, a canção The Weary Kind, do longa Coração Louco.
Paris 36 (Faubourg 36)
Dir.: Christophe Barratier
Com Gérard Jugnot, Clovis Cornillac, Kad Merad, Nora Arnezeder, Pierre Richard, Bernard-Pierre Donnadieu, Maxence Perrin, François Morel, Élisabeth Vitali, Christophe Kourotchkine, Eric Naggar
Cotação Paradoxo: Vale 73% do ingresso
Confira logo abaixo a música indicada ao Oscar de Melhor Canção Original, Loin de Paname:
Confira logo abaixo o trailer legendado em inglês de Paris 36:
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