quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Educação

Uma Libertação

Quem acompanha a carreira do escritor Nick Hornby mais atentamente não terá dificuldades em perceber que o autor tem uma forma única de captar com excelência a alma do homem britânico. Livros como Febre de Bola, Alta Fidelidade e Um Grande Garoto são fundamentais para se conhecer os escritos de Hornby em seu melhor e testemunhar a forma ímpar com que o escritor consegue mesclar humor, ternura, acidez e altas doses de auto-análise. Agora, quando Hornby tentou mudar seu foco e escrever de dentro da cabeça feminina, as tentativas invariavelmente foram falhas. Como ser Legal tem uma mulher como protagonista e é sofrível - um pouco por causa da falta de jeito do escritor em entender a mente feminina e muito por uma trama estapafúrdia e sem graça. Uma Longa Queda é bastante irregular, principalmente nos capítulos dedicados às mulheres da trama. Resumo da ópera: Nick Hornby não consegue calçar os sapatos de uma mulher – no sentido figurado, evidentemente.

Portanto, não deixa de ser uma surpresa que o roteiro de Educação seja assinado pelo autor e traga uma moça como protagonista - e muito bem desenvolvida. Claro, o fato de o texto ser baseado nas memórias da jornalista Lynn Barber ajudou, certamente. Mas não tira os méritos de Hornby em finalmente conseguir entregar uma personagem feminina digna de seus célebres Rob Fleming e Will Freeman. A interpretação cativante de Carey Mulligan também faz toda a diferença, é bem verdade.

No filme, dirigido pela cineasta dinamarquesa Lone Scherfig, acompanhamos a jovem Jenny (Mulligan) e sua cansativa rotina de estudos em plena Inglaterra nos anos 60. Seu pai, Jack (Alfred Molina), faz questão que a filha estude na prestigiada universidade de Oxford e exige que ela enfie a cara nos livros para conseguir as notas necessárias para ser aceita. Em um dia de chuva após seu ensaio com a orquestra, onde toca violoncelo, seu “hobby forçado”, Jenny esperava por condução e conhece o charmoso David (Peter Sarsgaard), um homem mais velho e entusiasta da boa música, como ele mesmo afirma. Encantada pelo modo que David encara o mundo, Jenny começa a se afeiçoar pelo bon vivant. Ele também demonstra muito interesse pela jovem, pelo seu modo tímido e inteligente de ser. O relacionamento entre os dois mudará o curso da vida de Jenny e a fará tomar escolhas impensadas até então.

Educação é um filme dirigido por diálogos. E muito bons, diga-se. Hornby sempre teve a mão para isso e neste segundo roteiro para longa-metragem, sua habilidade em criar bons diálogos continua intacta. O dono das frases mais espirituosas, sem sombra de dúvidas, é Jack, interpretado com maestria por Alfred Molina. Confesso que nunca vi o ator tão confortável em um papel quanto neste longa-metragem. Sua ternura para com a filha, misturada com a severidade por sua preocupação com o futuro da moça, são muito bem capturadas por Molina, que merece elogios rasgados por sua performance. Não foi lembrado pela Academia, mas recebeu algumas indicações a prêmios importantes como o Bafta e o British Independent Awards.

Sua atuação só não bate a corretíssima vivacidade e timidez de Carey Mulligan e sua Jenny. Interpretando uma garota saindo dos seus 16, a jovem atriz de 25 anos cativa pelo seu jeito terno, pela inteligência e pela alegria em descobrir novas experiências. Seu encantamento pela nova vida só não é maior que sua atração por David, um homem que lhe abriu os caminhos para uma existência de divertimentos e prazer. Peter Sarsgaard também merece elogios por conseguir imprimir muito charme a um personagem que necessita vender credibilidade ao espectador. O jeito com que David contorna as situações que vão sendo apresentadas à sua frente diz muito sobre sua índole. Portanto, não será grande surpresa para o espectador mais atento a reviravolta final. Aliás, se Hornby parece confortável ao escrever para Jenny, está ainda mais à vontade quando se dedica a David. Até suas referências pop não são esquecidas, como a bem sacada citação de C.S. Lewis e suas Crônicas de Nárnia.

Educação ganha muitos pontos pelo seu feeling sessentista. Não só pelo figurino, muito bem concebido por Odile Dicks-Mireaux, mas pela fotografia, assinada por John de Borman, que remete muito a produções européias da época. A impressão que fica é que o longa-metragem foi filmado em 1961 e permaneceu escondido até hoje, tamanho o clima anos 60 impresso na película.

A temática do amadurecimento, das escolhas e do desabrochamento de uma adolescente são mundialmente relacionáveis, portanto Educação acaba se tornando um filme saboroso e comunicativo tanto para Inglaterra, Estados Unidos ou Brasil. Isso também serve para outros pontos que perpassam a trama como as diferentes perspectivas quanto a ética e a falta de caráter de certos personagens. Tudo é muito bem conduzido por Lone Scherfig, que parece se espelhar no ritmo do cinema francês para contar sua história.

Com interessantes enquadramentos e utilizando muito bem as paisagens da Inglaterra e da França, Educação é um filme redondo, que cativa pelas atuações do seu bem escalado elenco e pela temática de descoberta que move a trama. Um longa-metragem pequeno no tamanho, mas gigante em qualidades.

Maratona Oscar: Educação foi indicado a 3 Oscar: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado (Nick Hornby) e Melhor Atriz (Carey Mulligan). Adoraria ver Nick Hornby sair do Kodak Theather com a estatueta na mão. Mas sei que isso dificilmente acontecerá. Este prêmio está praticamente nas mãos de Jason Reitman e Sheldon Turner pelo seu trabalho em Amor sem Escalas. Carey Mulligan ganhou recentemente o prêmio no Bafta – mas ali pesou bastante o fato de ela ser britânica. No Oscar, o páreo é entre Meryl Streep e Sandra Bullock, com uma vantagem para a primeira. Chances ainda menores têm a produção como Melhor Filme. Educação entrou no páreo por termos 10 e não 5 indicados. Fosse a regra antiga, nem estaria indicado. Mas valeu a lembrança, com certeza.

Educação (An Education)
Dir.: Lone Scherfig
Com Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Olivia Williams, Cara Seymour, Matthew Beard, Dominic Cooper, Rosamund Pike, Sally Hawkins e Emma Thompson
Cotação Paradoxo: Vale 89% do ingresso

Confira logo abaixo o trailer legendado de Educação:

Um comentário:

Uziel Santos disse...

A atuação da Carey, sim, merecia um bom Oscar. Meryl não deve ganhar pq já tem muitos e a academia tem essa de premiar quem não tem nenhum, único motivo pra Sandra ganhar.

Mas quem merece mesmo é: ou a Carey, ou a interprete de Preciosa, já que Meryl é orconcur.