Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e Snatch – Porcos e Diamantes (2001) definiram os filmes de gangster dos anos 90/2000. Estilosos, sujos, engraçados, muitíssimo bem amarrados. São longas-metragens que merecem realmente um lugar de destaque na coleção de qualquer cinéfilo. Infelizmente, o diretor destes trabalhos, Guy Ritchie, meio que perdeu a mão no meio do caminho. Filmes ruins e medianos como Destino Insólito (2002), Revolver (2005) e RocknRolla (2008) abalaram a confiança de muitos em relação ao talento de Guy Ritchie como diretor.
Mas eu acredito que ninguém desaprende a fazer cinema. Principalmente se a pessoa em questão tem dois excelentes filmes como os citados acima no currículo. Até por isso, fui à pré-estreia de Sherlock Holmes com alguma expectativa de um bom trabalho. E não saí decepcionado. É um filme divertido, com mistério, suspense, comédia e, claro, socos em câmera lenta. É um filme de Guy Ritchie, afinal de contas.
O filme começa com Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) e seu caro colega Dr. John Watson (Jude Law) perseguindo o perigoso Lord Blackwood (Mark Strong), vilão que está assassinando pessoas em Londres através de um ritual macabro. Preso pela dupla, Blackwood é sentenciado à morte e acaba indo à forca. Caso resolvido. Ou não. Testemunhas afirmam terem visto o Lord sair de sua tumba, retornando do mundo dos mortos. Mais um caso para Holmes – que estava basicamente enlouquecendo em casa, sem trabalho – mas não para Watson. O doutor está noivo e não pretende trabalhar mais com Sherlock, fato que deixa o detetive inconformado. No entanto, a curiosidade pela sinistra ressurreição de Blackwood faz com que Watson ajude seu velho companheiro, aqui e ali. Em um caso paralelo – ou nem tanto – Irene Adler (Rachel McAdams), antigo romance de Holmes, vai ao seu encontro lhe pedindo ajuda em um misterioso desaparecimento.Não posso dizer que sou um grande conhecedor de Sherlock Holmes. Já li alguns contos de Sir Arthur Conan Doyle, mas nunca cheguei a me debruçar sobre a obra com real interesse. Até pode ser uma falha de caráter, que pretendo resolver em pouco tempo, lendo mais alguns escritos do pai do detetive da rua Baker. Mas de acordo com o que já li, o retrato de Guy Ritchie para Holmes e Watson me pareceu bastante fidedigno. Watson só foi um gordinho desajeitado nas adaptações feitas da obra de Conan Doyle para as mais variadas mídias. Não no texto original. Assim como Sherlock e seu chapéu e cachimbo característicos são invenções das adaptações, não do autor. Como todos esses elementos já viraram conhecimento comum, é fácil olhar para o filme de Ritchie e pensar que aqueles não são Sherlock Holmes e John Watson. Ao contrário, meu caro leitor. Essa pode ser uma das adaptações mais próximas do texto original que o cinema já viu.
Além da personalidade da dupla principal ter sido mantida fiel aos escritos de Conan Doyle, diversos elementos foram espalhados pelo filme que deleitarão os fãs mais ardorosos. Seja a pequena aparição da senhora Hudson (Geraldine James), senhoria de Holmes, sejam algumas frases que referenciam aventuras antigas, até mesmo o vício do detetive em cocaína – colocado de forma quase subliminar no filme, é bem verdade. Se esses pontos devem divertir os fãs, quem nunca leu uma aventura do detetive britânico terá igual parcela de diversão – talvez mais pelo jeito de Guy Ritchie em filmar a história.
O cineasta acerta em cheio ao manter seu estilo intacto ao contar as aventuras de Sherlock Holmes. Ou seja, temos vários momentos de câmera lenta – nas cenas de luta, principalmente; temos quebras do tempo narrativo – quando nos é revelado informações importantes depois de termos visto uma cena, como a do mendigo e a carruagem; os diálogos rápidos e cheios de ironia; a câmera e seus movimentos distintos; entre outros pontos que deixam Sherlock Holmes muito próximo dos antigos filmes do diretor.
Claro que nem tudo são flores. O filme perde um pouco o ritmo no meio da projeção e a fotografia – ao menos no cinema que assisti – estava tão escura que, em alguns momentos, não dava para ver direito o que acontecia. Nos trailers a imagem não parecia ser tão lúgubre, portanto estou inclinado a pensar que foi culpa da cópia. Já o ritmo é problemático. O filme começa em alta rotação e depois de uns 50 minutos de história, parece que estagna. Um pouco culpa do roteiro assinado por Michael Robert Johnson, Anthony Peckham e Simon Kinberg, que vêem necessidade de parar e explicar muitos elementos antes de voltar para a ação. Um pouco culpa da ausência de Watson em algumas cenas, visto que os melhores momentos do filme são as dobradinhas entre Robert Downey Jr. e Jude Law.
Por falar na dupla central, ambos estão excelentes em seus papéis. Robert Downey Jr. arranha um sotaque britânico convincente, caprichando nas nuances mais freaks de Sherlock (algo que talvez Johnny Depp faria caso fosse convidado). Vemos então um detetive irônico, inteligentíssimo, mas bagunçado e confuso em relação aos seus sentimentos por Watson, prestes a se casar. Já o doutor interpretado por Jude Law é um parceiro à altura de Holmes, com inteligência e perícia para ser um sidekick valioso. Mark Strong e Eddie Marsan, como Lord Blackwood e inspetor Lestrade, respectivamente, são coadjuvantes de luxo, aparecendo menos do que deviam. A mais fraca do elenco é Rachel McAdams, que não consegue fazer frente a ninguém do elenco.
Lembrando em muitos aspectos Batman Begins - reintegração de personagem ao cinema, gancho óbvio para uma continuação citando grande vilão, excelente trilha de Hans Zimmer - Sherlock Holmes tem tudo para ser o início de uma ótima franquia. Mais uma para o currículo de Robert Downey Jr., que está compromissado com a Marvel como o Homem de Ferro, e a primeira de Guy Ritchie, um ótimo diretor que passou por maus bocados na carreira e na vida pessoal, mas que pode dar a volta por cima com seu divertido Sherlock Holmes. Elementar.
Sherlock Holmes
Dir.: Guy Ritchie
Com Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams, Mark Strong, Eddie Marsan
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso
Assista abaixo ao trailer legendado de Sherlock Holmes:
Caso você já tenha assistido ao filme, confira novamente os ótimos créditos finais de Sherlock Holmes – mas com a trilha de Arctic Monkeys, Perhaps Vampires is a bit Strong but...
2 comentários:
putz, olhei o trailer, mas esse Sherlock Holmes está muito moderninho, bem diferente do Sherlock Holmes dos livros. Sherlock Holmes mesmo é o do filme Enigma da Pirâmide, esse tá muito anos 2000. Aquelas cenas em camera lenta, nada a ver, parece filme de outro personagem, não Holmes. Abraço!!
Tiago, engraçado você comentar que este Sherlock Holmes parece moderno. Visto que, se formos pegar o Enigma da Pirâmide, para a época, era bem moderno também. Tanto que tem o primeiro personagem totalmente criado por computador do cinema. Claro que não vou discordar da tua memória afetiva, mas dê uma chance a esse novo Sherlock que talvez tu goste. Abraço.
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