Pedro Almodóvar é conhecido por ter uma filmografia recheada de personagens femininas fortes. Não é necessário ir muito longe para corroborar essa afirmação. Basta citar trabalhos recentes como Volver, de 2006, Fale com Ela, de 2004, e Tudo Sobre Minha Mãe, de 1999, para notarmos que Almodóvar tem um interesse legítimo pela alma feminina. Portanto, é interessante notar que em Abraços Partidos, seu mais recente longa-metragem, o cineasta espanhol resolveu mudar de ares e ter um homem como protagonista. Mesmo que Penélope Cruz seja o primeiro nome dos créditos e figura principal do belo cartaz do filme, é Lluís Homar quem nos conta a história de Abraços Partidos. É o seu personagem quem nos conduz pela trama misteriosa e é sob sua ótica que acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos. Mesmo que esta ótica seja a de um deficiente visual.
Escrito pelo próprio Almodóvar, Abraços Partidos nos apresenta, primeiramente, ao cineasta Harry Caine (Homar), um homem cego que ganha a vida escrevendo roteiros com o auxílio do jovem Diego (Tamar Novas), filho de sua amiga e agente Judit (Blanca Portillo). Certo dia, Caine recebe a visita de um rapaz que se autodenomina Raio X (Rubén Ochandiano), que pretende contratar o roteirista para escrever a história de um pai homófobo que não aceita seu filho do jeito que é. Caine não aceita o trabalho, o achando pessoal demais. Não demora muito para que ele descubra que este rapaz é, na verdade, uma figura de seu passado, um sujeito que participou de um momento sublime e traumático de sua vida. Com este fantasma do passado assombrando seu presente, Harry relembra o que aconteceu há 14 anos, quando ainda enxergava. Tempo em que atendia pelo seu nome de batismo, Mateo Blanco, e, mais importante, época em que conheceu o ciumento Ernesto (José Luis Goméz) e sua bela esposa Lena (Penélope Cruz).
Almodóvar é inteligente ao separar a história em dois momentos distintos, nos mostrando primeiramente as cicatrizes de um passado que não conhecemos para depois nos desvelar os pontos cruciais da trama. Boa parte deste exercício de recuperação do passado é engatilhada pelas memórias de Harry Caine, que as conta para Diego. O recurso funciona. Mesmo que as cenas apresentem minúcias que Caine aparentemente não teria como saber, este soube, certamente, através de Lena. Como acompanhamos este personagem e suas memórias, também somos apresentados a fatos novos no momento em que ele os descobre – a conversa com Judit no restaurante é um bom exemplo disso. Como é de praxe, Pedro Almodóvar escalou atores que já haviam trabalhado anteriormente com ele para formar seu elenco. Ou seja, pessoas de sua confiança para interpretarem personagens com cargas dramáticas fortíssimas. É o caso de Lluis Homar (Má Educação), Penélope Cruz (Volver, Tudo Sobre minha Mãe, Carne Trêmula), Blanca Portillo (Volver), Ângela Molina (Carne Trêmula) e Lola Dueñas (Fale com Ela e Volver), que voltam a trabalhar com o cineasta espanhol depois dos mais diversos trabalhos. O trio principal, formado por Homar, Penélope e Blanca, é muito competente – com destaque para a última, que carrega um enorme peso durante boa parte da trama, livrando-se dele de forma pungente.
Apesar de ter citado os atores que já trabalharam com Almodóvar no passado, o maior destaque de Abraços Partidos é José Luiz Goméz (de Os Fantasmas de Goya) que interpreta o poderoso e ciumento Ernesto Martel. Com uma obsessão flagrante por sua esposa, Lena, Martel faz de tudo para manter a mulher próxima de si. Suas reações e olhares, principalmente nas cenas que envolvem a leitora de lábios interpretada por Lola Dueñas, são ótimos exemplos de um ator que tem total controle sobre suas expressões. Goméz não precisa dizer uma palavra para que entendamos todo o seu pesar, toda a sua fúria, todo o seu ciúme.
É do personagem de José Luiz Goméz também que surge o principal motivo do filme: o desejo. Boa parte dos personagens tem desejos fortíssimos e como eles consumam este desejo é o que faz a personalidade de cada um. Goméz desejava sua secretária e praticamente pagou para que ela se tornasse sua esposa. Por outro lado, o desejo de Lena em se tornar atriz a aproximou do então Mateo Blanco, que passou a desejá-la de forma quase irracional – o encontro que os dois têm no camarim de Lena é chave para esta compreensão da vontade de ambos. Judit, por sua vez, possuía desejos secretos, que acabaram fazendo-a carregar um grande remorso por mais de uma década. O desejo e a obsessão transformaram a vida dos personagens de Abraços Partidos, que buscam como podem uma redenção para seus pecados.
Como o longa-metragem tem em sua trama pessoas que trabalham no cinema, é interessante notar que existe uma metalinguagem recorrente no roteiro de Abraços Partidos. Mais facilmente reconhecível é o fato de Mateo Blanco estar filmando uma versão aproximada de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, famoso filme do início da filmografia de Almodóvar. Comentários sobre os tão em voga vampiros na telona e a presença por tantas vezes intrusiva de um produtor no produto final de um longa-metragem servem como um retrato interessante dos bastidores do se fazer cinema. Tudo isso atrelado a uma rápida citação à Viagem à Itália, de Roberto Rossellini, monta um expressivo mosaico, por vezes comentando as situações mostradas no filme – como é o caso da cena retratada em Abraços Partidos, protagonizada por Ingrid Bergman.
Abraços Partidos pode não ser o melhor Almodóvar da década, estando aquém de trabalhos mais completos como Fale com Ela ou Volver. Pode incomodar o fato de algumas respostas serem deixadas de lado pelo cineasta, apesar de não atrapalhar necessariamente o resultado final. Elas são peças de um quebra-cabeça incompleto – ou, por que não dizer, pedaços perdidos de fotos partidas. Contudo, é um exemplar digno de nota do que Almodóvar sabe fazer de melhor: colocar a emoção à flor da pele. Muitas das marcas registradas do cineasta estão lá, como o uso efusivo do vermelho, o cuidado com a direção de arte, o elenco de caras conhecidas e a forte sexualidade. Mas algumas novidades interessantes como o flerte com o suspense e o foco em um personagem masculino sinalizam uma tentativa de mudança bem-vinda. Não chega a ser um desvio radical, mas é interessante notar que Almodóvar procurou outra forma de contar sua história. Claro, tomando o cuidado de não perder seus antigos fãs pelo caminho. Isso, provavelmente, seria mais perigoso do que terminar um filme no total escuro.
Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos)
Dir.: Pedro Almodóvar
Com Penélope Cruz, Lluis Homar, Blanca Portillo, José Luis Goméz, Ruben Ochandiano, Tamar Novas, Ángela Molina e Lola Dueñas
Cotação Paradoxo: Vale 88% do ingresso