quarta-feira, 10 de abril de 2013

O Canhoneiro de Yang-Tsé

Encouraçado McQueen

Em 1966, quando dirigiu O Canhoneiro de Yang-Tsé, Robert Wise já havia ganhado por duas vezes o Oscar de Melhor Filme e Diretor – com Amor, Sublime Amor e A Noviça Rebelde – além de ter assinado produções memoráveis como Marcado pela Sarjeta e O Dia em que a Terra Parou. Apesar de tantos louros para estas demais produções, o cineasta confessou certa vez que o título que mais o orgulhava em sua filmografia era O Canhoneiro de Yang-Tsé, indicado a oito Oscar, mas sem receber estatueta alguma. O porquê de sua predileção foi explicada pelo fato de ter sido dificílimo contar aquela história. E o resultado final foi tão recompensador que Wise dava festas anuais para os membros daquela produção – talvez se desculpando pelo inferno durante as filmagens. Com uma trama ambientada boa parte em um encouraçado, com gravações feitas em locação e demorando meses para encerrar a fotografia principal (quando os planos originais eram apenas algumas semanas), o longa-metragem que deu a única indicação ao Oscar para Steve McQueen foi traumática para o ator, que ficou de molho durante dois anos até voltar à frente das câmeras. Ao menos, todo o trabalho valeu a pena.

Na trama, baseada em obra de Richard McKenna e assinada por Robert Anderson, o engenheiro Jake Holman (McQueen) é transferido para o U.S.S. San Pablo em plena revolução chinesa e logo começa a perceber que a tripulação de marinheiros do encouraçado não é nada amistosa. Sem precisar trabalhar arduamente por causa da mão de obra barata dos chineses, a equipe vê em Holman uma figura perigosa, visto que ele demanda ficar perto dos motores do navio e fazer sua função, não deixando que outros o façam por ele. Seu comportamento arredio logo chama a atenção do capitão Collins (Richard Crenna), que não permite que ele mude o status quo dentro do Sand Pebbles (como os tripulantes chamam o San Pablo). Fazendo amizade apenas com um companheiro da marinha, o simpático Frenchy (Richard Attenborough), Holman enfrentará diversos problemas enquanto navega pelas águas agitadas da China revolucionária.

Filmado em Taiwan e Hong Kong, O Canhoneiro de Yang-Tsé ficou notório pelas incríveis tomadas capturadas in loco e pela atmosfera de tensão que Robert Wise consegue imprimir em boa parte da película. O clima de animosidade dentro do San Pablo é palpável e algumas fortes sequências (como o terrível destino do ajudante chinês de Holman) impressionam pela crueza – para uma produção da década de 60, ao menos. E se Steve McQueen nunca chegou a ser um ator multifacetado, ao menos consegue convencer como poucos na figura do rude, porém íntegro, Jake Holman. Sua amizade com Frenchy, bem como o senso de responsabilidade para com o trabalho, fazem do personagem uma figura interessante – visto que parece desconfortável com qualquer outro detalhe de suas funções, seja acatar ordens ou viver em comunidade.   

O problema de O Canhoneiro de Yang-Tsé, além de sua quilométrica metragem, é a falta de uma linha mestra a ser seguida. Robert Wise parece atirar para todos os lados, sem conseguir manter a história nos trilhos. Existe tanta coisa acontecendo no filme que, por vezes, o próprio protagonista é esquecido. Mesmo que seja tocante a subtrama entre Frenchy e a indefesa Maily (Emmanuelle Arsan), é realmente necessário este desvio da trama principal? Parece-me que uma narrativa mais econômica faria bem para este drama de guerra.

Apresentando uma novata e bela Candice Bergen, fazendo um par romântico um tanto esquisito com Steve McQueen, O Canhoneiro de Yang-Tsé acaba sendo uma produção irregular, porém válida quando pensamos nos talentos envolvidos. Ainda que não tenha levado prêmio algum da Academia naquele ano (foi indicado inclusive a Melhor Filme), Robert Wise acabou levando uma estatueta especial, o Irving G. Thalberg Award, em 1967, pelo conjunto de sua obra. Mal os votantes do Oscar sabiam que o veterano cineasta estava longe de se aposentar e ainda faria muitos outros filmes interessantes no futuro. Mas isso é assunto para outra crítica.

O Canhoneiro de Yang-tsé (The Sand Pebbles)
1966 – 182 minutos – Drama
Dir.: Robert Wise
Com Steve McQueen, Richard Attenborough, Candice Bergen, Richard Crenna, Mako, Emmanuelle Arsan, Simon Oakland
Cotação Paradoxo: 3 estrelas e ½ 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O Dia em que a Terra Parou (1951)


Klaatu Barada Nikto

Em 1946, o Globo de Ouro, o hoje tradicional prêmio da Imprensa Estrangeira de Hollywood, estava apenas em sua quarta edição. Dentre suas várias categorias convencionais, uma criada naquele ano chamava a atenção: Best Film Promoting International Understanding (algo como Melhor Filme Promovendo o Entendimento Internacional). Depois de várias produções sobre guerra e um western terem vencido este diferenciado prêmio, uma ficção científica nada corriqueira levou a estatueta para casa, em 1951. Este filme era O Dia em que a Terra Parou, um dos grandes trabalhos do saudoso Robert Wise. A mensagem do longa-metragem, ainda que alegórica na questão alienígena, era bastante clara: as grandes nações da Terra precisavam chegar a um consenso e evitar novos conflitos, do contrário, não existiria mais planeta para ser habitado. O mais curioso é o fato do personagem que nos abre os olhos em relação a isso ser de outro planeta – e sua mensagem ainda é tão atual quanto nos longínquos anos 50 do século passado.

Com roteiro de Edmund H. North, baseado em história de Harry Bates, acompanhamos a chegada de um disco voador em plena capital norte-americana sob os olhares atônitos de toda a população. Não demoram a sair daquele estranho veículo espacial dois seres: um robusto robô e um sujeito empunhando um objeto com formato bizarro. O exército, pronto para uma resposta bélica, parte para cima dos visitantes e destrói tal instrumento – para logo descobrir ser um presente do espaço, que permitiria enxergar vidas em outros planetas. Gort, o robô, destrói as armas do exército, mas é impedido por Klaatu (Michael Rennie), seu parceiro de viagem interplanetária, a atacar mais humanos. Levado pelas autoridades, Klaatu revela que precisa falar com os líderes mundiais, para transmitir-lhes uma importante mensagem. Seu pedido é logo rechaçado como impossível – muitos países não sentariam ao lado de outros para uma conversa, quanto mais para receber um recado do espaço. Observando estar em uma jornada difícil, Klaatu foge do local onde estava confinado e decide arranjar esse encontro por conta própria. Em seu caminho, conhece o jovem Bobby (Billy Gray) e sua bela mãe, Helen (Patricia Neal), duas figuras que lhe dão um pouco de esperança em relação à raça humana.

O Dia em que a Terra Parou é um marco na ficção científica por conseguir fazer do gênero algo a ser levado a sério. Poucas foram as produções até então que iam além do divertimento puro e simples, geralmente de orçamento rasteiro e ideias, ainda que inspiradas, de execução duvidosa. Robert Wise conseguiu fazer da sci-fi uma vertente cinematográfica historicamente relevante, colocando os alienígenas como um grito de alerta para as nações do planeta, uma alegoria ao terror do desconhecido, um paralelo com o medo dos Estados Unidos em relação à ameaça comunista. Tudo isso em um filme que pode ser lido de forma rasa – apenas uma força extraterrestre em ação na Terra – ou com estes outros subtemas em uma segunda camada.

Robert Wise foi inteligente ao escalar para o papel de Klaatu um ator até então desconhecido do grande público, o talentoso Michael Rennie. Diz-se que um dos postulantes ao papel era Spencer Tracy, mas Wise teria barrado o nome do astro por temer que, se Tracy saísse daquele disco voador, as plateias nunca acreditariam que aquele sujeito seria um extraterrestre. Além de ter ganho o papel pela pouca fama, Rennie conquistou o cineasta – e os espectadores, posteriormente – com uma intepretação curiosa como o alienígena. Apesar de ser bastante clínico em suas intenções, Klaatu se mostra uma pessoa calorosa e receptiva ao criar um laço de amizade com o garoto Bobby. A ameaça do espaço é seríssima, mas ao criar tempo para conhecer nossos costumes e a vida na Terra, Klaatu começa a entender algumas de nossas idiossincrasias. Rennie consegue transmitir essa peculiar característica do personagem, mantendo-se afável para a plateia, ainda que traga péssimas notícias para nós, humanos. Patricia Neal está igualmente cativante, ainda que perca espaço na trama para seu filho na tela, o jovem talentoso Billy Gray.

Os efeitos especiais envelheceram, obviamente, mas não atrapalham de forma alguma a mensagem do filme. A se destacar também a seminal trilha sonora de Bernard Herrmann para O Dia em que a Terra Parou. O uso do Theremin para representar o lado alienígena da história virou um grande marco, sendo utilizado desde então nas mais variadas produções de ficção científica. Ao ouvir o som do instrumento, você sabe que está vendo um filme com alienígenas. Isso sem mencionar na inesquecível palavra-chave repetida por Klaatu a Helen, para evitar um apocalipse pelas mãos de Gort: Klaatu Barada Nikto.

O Dia em que a Terra Parou mantém-se completamente atual através de seu esmero técnico, os talentos envolvidos e pela mensagem antibelicista que tão eloquentemente transmite em seus pouco mais de 90 minutos de duração. A bela fotografia em preto e branco esconde um pouco os efeitos visuais limitados e não deve ser, de forma alguma, empecilho para se conferir esta bela ficção científica. Até porque, o remake em cores produzido em 2008 tem ótimos efeitos visuais e nunca consegue alcançar o charme do filme de Robert Wise.

O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still)
1951 – 92 minutos – Ficção Científica
Dir.: Robert Wise
Com Michael Rennie, Patricia Neal, Billy Gray, Hugh Marlowe, Sam Jaffe
Cotação Paradoxo: 5 estrelas

sexta-feira, 29 de março de 2013

Anna Karenina

No Palco

Em seu terceiro filme de época, Joe Wright faz sua terceira parceria com a atriz Keira Knightley, adaptando mais uma obra clássica da literatura. Em um primeiro momento, pode-se pensar que o cineasta não tem medo (ou vergonha) de se repetir. No entanto, Anna Karenina, seu trabalho mais recente, é bem diferente dos seus esforços anteriores. A protagonista pode ser a mesma e a narrativa, sim, é ambientada no passado. Essas, no entanto, são as poucas similaridades entre Orgulho e Preconceito, Desejo e Reparação e Anna Karenina. Adaptando a clássica obra do escritor russo Lev Tolstoy, Joe Wright capricha no visual, criando uma maneira diferente e belíssima de contar a história da personagem título, uma mulher que desafiou os costumes da época para viver seu grande amor. Infelizmente, o esmero visual não se estende à narrativa.

Na trama, a personagem título, vivida com ímpeto por Keira Knightley, visita o irmão, Oblonsky (Matthew Macfadyen), para tentar ajuda-lo em um caso espinhoso. Ele traiu sua esposa, Dolly (Kelly Macdonald), e precisa de uma mãozinha da irmã para garantir que seu casamento não sucumba. Durante essa visita, Anna conhece o oficial Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), pretendente da irmã de sua cunhada, a jovem Kitty (Alicia Vikander) que, por sua vez, é objeto de afeição de Levin (Domhnall Gleeson). Anna e Vronsky não escondem atração um pelo outro e, durante um baile, dançam em frente a estupefatos membros da sociedade russa. Este ato de indiscrição é só o começo de um caso de amor que transformará a vida daquele casal – e do marido de Anna, o austero Alexei Karenin (Jude Law).

Tom Stoppard ficou responsável por adaptar a obra de Tolstoy e transformar o extenso livro em um longa-metragem de pouco mais de duas horas. Grande desafio, realizado de forma não muito competente pelo roteirista e por Joe Wright. Por vezes, a história anda rápido demais, passando por situações e personagens em velocidade supersônica. Em outras, inexplicavelmente, a narrativa empaca. Se não bastasse isso, a temática do adultério é repetida à exaustão, com cenas que apenas martelam o que já foi dito anteriormente. A traição de Anna Karenina é um dos principais temas do livro, mas não é o único. Ainda que a falsidade e a hipocrisia da sociedade russa sejam também endereçadas no longa-metragem, parecem eclipsadas pela vontade de criar um romance palatável para plateias atuais.

Se nas temáticas trabalhadas o longa de Joe Wright deixa um tanto a desejar, compensa completamente com seu visual diferenciado. A trama é toda ambientada em um palco, com cenários construídos meticulosamente e com direção de arte que impressiona pela inventividade. A escolha de contar a história de Anna Karenina em um viés teatral não é gratuita. Como os personagens estão sempre representando para os demais, a teatralidade daquela gente é traduzida em um palco italiano. As transições de cena acontecem de forma dinâmica, com a montagem sendo um destaque desta produção. Isso, atrelado a música sempre inventiva de Dario Marianelli, deixa Anna Karenina um programa sublime no que tange a técnica. O único personagem que se livra das amarras do palco e aparece em locação, em paisagem campestre, é Levin – um dos poucos que é verdadeiro em suas intenções.

O trabalho do elenco é consistente, com destaque para Keira Knigthley e Matthew Macfadyen. O casal de Orgulho e Preconceito, aqui irmãos, forma uma interessante dobradinha. Karenina é o lado sério, amoroso, apaixonado, sofredor. Oblonsky serve como um alívio cômico em certos momentos, com um estilo bonachão que cai bem no ator. Jude Law, ainda que muito correto, ganha pouco o que fazer, ficando ofuscado. Já Aaron Taylor-Johnson precisa comer muito feijão com arroz para convencer como um amante apaixonante.

Indicado a quatro Oscar e vencedor na categoria Direção de Arte, Anna Karenina é um exercício incrível da técnica de Joe Wright, mas poderia ser um filme superior caso fosse concebido de forma a dar o devido destaque à história criada por Lev Tolstoy.

Anna Karenina
2012 – 127 minutos – Drama
Dir.: Joe Wright
Com Keira Knightley, Aaron Taylor-Johnson, Matthew Macfadyen, Jude Law, Kelly Macdonald, Domhnall Gleeson, Alicia Vikander, Emily Watson, Olivia Williams, Ruth Wilson
Cotação Paradoxo: 3 estrelas e ½

quarta-feira, 27 de março de 2013

Desejo e Reparação


Olhos Inocentes

Depois de Orgulho e Preconceito, Joe Wright e Keira Knightley resolveram repetir a parceria bem sucedida em mais uma adaptação literária para o cinema. Desta vez, sai Jane Austen, entra Ian McEwan. Diretor e atriz embarcam em mais uma trama de época em Desejo e Reparação, uma parceria bastante festejada pela crítica internacional, vencedora de prêmios como o Globo de Ouro (no qual foi eleito o Melhor Drama) e Oscar (emplacando uma estatueta dourada e mais seis indicações). Ainda que esta obra tenha recebido mais louros, empalidece frente ao trabalho anterior de ambos.

Na trama, assinada por Christopher Hampton, estamos no ano de 1935. Briony Tallis (Saoirse Ronan) é uma talentosa jovem que passa seus dias em frente à máquina de escrever. Imaginativa, a garota acaba por presenciar fatos da vida de sua irmã Cecila (Keira Knightley) junto ao filho da governanta da casa, Robbie (James McAvoy) que, tirados do contexto, poderiam criar problemas para a dupla. A chegada do irmão das garotas junto a um amigo almofadinha mudaria bastante o destino daquele trio. Acusado por Briony de um crime que não cometeu, Robbie acaba sendo levado a prisão e, posteriormente, à Segunda Grande Guerra. O desenrolar dessa história faz jus ao título do filme. 

Joe Wright acerta ao colocar o ponto de vista da narrativa primeiramente nos olhos de Briony, que é a personagem mais inocente da trama. Ao vermos os acontecimentos através da ótica da pequena garota, ficamos nos questionando o que está havendo na história. Depois, ao sabermos de todas as informações, tudo acaba fazendo sentido, mantendo um bom ritmo inicial para a narrativa. O problema é que esse recurso precisa ser abandonado lá pela metade da história, fazendo com que o filme perca seu brilho inicial. Quando a trama dá lugar ao que está acontecendo com Robbie durante a guerra, o ritmo da narrativa mergulha em um estado de hibernação, transformando o drama interessante em um enfadonho registro da participação britânica na guerra. Mesmo que o diretor tenha feito um belo plano seqüência, revelando os horrores do combate, isso não ameniza o fato de que o filme se torna maçante quando abandona o ano de 1935. 

E isso deve-se muito ao fato de a boa surpresa do longa-metragem – que atende pelo nome de Saoirse Ronan – acabar “cortada” da trama no meio da projeção. Ela sim possui uma atuação destacada, roubando a cena da dupla principal de adultos. Acertadamente, a Academia premiou (de certa forma) a bela performance da então menina com uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Ainda que McAvoy e Knightley tenham boas atuações, as indicações ao Globo de Ouro e ao Bafta pareceram um tanto exageradas.

E não digo isso apenas em relação às atuações. A grande antecipação que acompanhou a chegada de  Desejo e Reparação aos cinemas acabou jogando contra o filme, que não consegue responder à altura das expectativas. O que salva este drama da enfadonha segunda parte da história é o seu ato final, brilhante. Com ótimas atuações do trio principal, com Romola Garai no papel de Briony, e com o twist do desfecho, o longa-metragem acaba subindo bastante no conceito. Para finalizar, chama a atenção também, logo nos primeiros minutos do filme, sua inspirada trilha sonora, composta por Dario Marianelli, vencedora do Oscar daquele ano, que usa o barulho da máquina de escrever para criar um interessante tema sonoro para a personagem escritora. Se todo o resto do filme fosse tão satisfatório quanto a trilha sonora e o último ato, teríamos um novo clássico em mãos. Não é o caso, no entanto. 

Desejo e Reparação (Atonement)
2007 – 127 minutos – Drama
Dir.: Joe Wright
Com Keira Knightley, James McAvoy, Saoirse Ronan, Juno Temple, Benedict Cumberbatch, Romola Garai e Vanessa Redgrave
Cotação Paradoxo: 3 estrelas

segunda-feira, 25 de março de 2013

Orgulho e Preconceito

Bennett & Darcy

Jane Austen escreveu "Orgulho e Preconceito" entre o final do século XVIII e início do século XIX. Época de casamentos arranjados, de se cortejar a futura esposa e, principalmente, em que o nível social poderia começar ou acabar um relacionamento. Fazer uma história escrita há cerca de duzentos anos funcionar para as plateias jovens atuais é uma tarefa complicada. Joe Wright, o cineasta que se incumbiu da função, provavelmente sabia disso. Por essa razão, o diretor escolheu um elenco jovem e bonito, uma narrativa rápida e ágil e um clima bem humorado para recontar a história de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, um casal que enfrenta orgulhos e preconceitos até perceberem que foram feitos um para o outro. A escolha do cineasta não poderia ser mais satisfatória.

Na trama, adaptada para a telona por Deborah Moggach, a matriarca dos Bennett não pensa em outra coisa a não ser fazer com que suas cinco filhas tenham um bom casamento. Como a família não tem muitos recursos, o matrimônio com um pretendente rico salvaria as garotas de um futuro não muito promissor. Quando chegam à região dois jovens rapazes de famílias abastadas, as senhoritas Bennett logo vão ao seu encontro. A química entre Jane (Rosamund Pike) e Mr. Bingley (Simon Woods) nasce tão logo os dois colocam os olhos um no outro. O mesmo não pode ser dito entre Elizabeth (Keira Knightley) e Mr. Darcy (Matthew Macfadyen). Com uma atitude esnobe no começo, Darcy consegue apenas conquistar o ódio da moça. O decorrer da história mostra como as primeiras impressões podem ser enganosas.

Orgulho e Preconceito conquista o espectador essencialmente pelos personagens. Todos são interessantes à sua própria maneira. Temos a Senhora Bennet (Brenda Blethyn, em ótima atuação), que não consegue ser outra coisa que não irritante durante todas as suas aparições. Temos o conformado Mr. Bennet (Donald Sutherland), o patriarca da família que sempre parece estar cansado demais para falar ou agir. Tom Hollander interpreta o engraçado Mr. Collins, sempre inoportuno e sem jeito. E ainda temos Judi Dench, que empresta sua figura austera para criar uma personagem opressora, a poderosa Lady Catherine de Bourg. A junção de tantas figuras interessantes com uma boa trama só poderia render um belo filme.

Mas os donos da história são quem realmente ganham a plateia. Keira Knightley interpreta Liz Bennet com uma energia tão grande e uma certeza em cada uma de suas decisões que fica impossível não torcer para a bela garota de sorriso juvenil. Já Matthew Macfadyen interpreta um soturno Mr. Darcy, um homem que apenas sai da sua casca quando descobre que está apaixonado. É engraçado ver a força que aquele rapaz retraído faz para travar uma conversa trivial com uma garota. Sua falta de jeito e sua bondade conquistam as espectadoras, enquanto os homens ficam divididos entre a decidida Liz ou a sonhadora Jane Bennet.

À época de seu lançamento, Orgulho e Preconceito recebeu quatro indicações ao prêmio da Academia. A bela atuação de Keira Knightley lhe rendeu uma indicação não só ao Oscar como ao Globo de Ouro – em ambas premiações, acabou perdendo para Reese Whiterspoon, por Johnny e June. De qualquer forma, nada mal para uma garota que começou sua carreira sendo sósia de Natalie Portman em Star Wars - Episódio IA Ameaça Fantasma. Ainda que o filme tenha levado nenhuma estatueta para casa, colocou o nome de Joe Wright no radar de Hollywood. Tanto que o próximo trabalho do cineasta, o arrojado Desejo e Reparação, teria mais sorte nas premiações, em mais uma bela parceria entre o diretor e sua bela Liz Bennet.

Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice)
2005 – 127 minutos – Romance
Dir.: Joe Wright
Com Keira Knightley, Matthew Macfadyen, Rosamund Pike, Jena Malone, Carey Mulligan, Donald Sutherland, Brenda Blethyn, Kelly Reilly, Rupert Friend, Tom Hollander, Jay Simpson e Judi Dench
Cotação Paradoxo: Vale 4 estrelas e 1/2

sexta-feira, 22 de março de 2013

...E O Vento Levou

Frankly, My Dear...

Tudo em ...E O Vento Levou é superlativo. Desde sua temática grandiosa, passando pelo seu tempo de duração, seus prêmios, sua polpuda bilheteria e os milhões de espectadores que carregou para os cinemas. Mas o que fez com que essa produção assinada pelo visionário David O. Selznick e dirigida por Victor Fleming fosse esse sucesso retumbante? Claro que não existe apenas uma resposta. O fato do livro de Margaret Mitchell ter sido um best seller e gerar bastante expectativa sobre sua adaptação foi um dos pontos, certamente. Na época, todos queriam saber quem interpretaria Scarlett O’Hara e Rhett Butler, os amados protagonistas da trama, e como seria transportada a quilométrica história do casal, com a guerra civil norte-americana como pano de fundo. O resultado foi uma produção complicada, porém primorosa, que até hoje mantém seus status de clássico absoluto.

Adaptado para o cinema por Sidney Howard, ...E O Vento Levou conta a história da mimada Scarlett O'Hara (Vivien Leigh), filha de ricos proprietários de terra no Sul dos Estados Unidos, dona de beleza e esperteza ímpares. Todos os homens do local desejam aquela jovem – porém, ela tem olhos apenas para Ashley Wilkes (Leslie Howard), corajoso e certinho bom partido. O problema é que seu amado já está com casamento arranjado com a bela e bondosa Melanie (Olivia de Havilland), o que não impedirá Scarlett de investir em um relacionamento com Ashley. Nem a presença do aventureiro Rhett Butler (Clark Gable) faz com que a moça esqueça o seu objeto de afeto. Com o estouro da Guerra Civil norte-americana, os homens partem para a guerra deixando suas mulheres para trás. Casada às pressas com um pretendente sem importância, Scarlett logo se vê viúva e nada pronta para viver seus dias de luto. O encontro com Rhett em uma festa beneficente reacende a chama naquele homem, que pretende ganhar o coração da jovem O’Hara. No entanto, a tarefa não será nada fácil devido ao gênio forte daquela mulher.

George Cukor foi o cineasta que começou a rodar ...E o Vento Levou, mas acabou sendo demitido após desavenças inúmeras com o produtor David O. Selznick e com o astro Clark Gable. Com isso, Victor Fleming foi chamado às pressas para assumir a cadeira de direção – o que o fez abandonar O Mágico de Oz na reta final das filmagens – mudando completamente os rumos daquela produção. Sua primeira ação foi mandar reescrever todo o roteiro – pedido aceito e realizado em cinco dias. Vivien Leigh notoriamente não gostou da mudança na direção, visto que Cukor a treinava de forma pacienciosa enquanto Fleming era conhecido como um sujeito rude. Este fato, no entanto, fez com que o cineasta e Gable fechassem completamente. Aceito ou não pela protagonista, Fleming a dirigiu no que seria sua atuação premiada pelo Oscar. Os louros, claro, são divididos com George Cukor, que mesmo fora da cadeira de direção ainda ajudava Leigh em suas falas.

Ainda que o romance seja o principal motor do longa-metragem, existem outros pontos a serem destacados nesta produção. A escravidão e a guerra civil são temáticas importantes, ainda que a primeira seja apresentada de forma simplista. Os escravos que observamos comportam-se como empregados felizes, nunca sofrendo a mão pesada da sua condição. Esta glorificação da escravidão é uma mácula de ...E O Vento Levou. Ao menos com isso, ironicamente, os atores negros da produção ganharam personagens de destaque – e a boquirrota Mammy, interpretada por Hattie McDaniel, deu a atriz o Oscar na categoria Coadjuvante, o primeiro dado a um artista negro. Não deixa de ser curioso que o lado que acompanhamos – e, por serem os mocinhos da história, acabamos torcendo – é exatamente os norte-americanos que defendiam a escravidão. Felizmente para a História real, esta parcela foi vencida (e, a partir daí, começa a segunda parte da trama).

Os cenários grandiosos (muitos deles pintados à mão e inseridos em pós-produção), a fotografia muito bem concebida e os figurinos bufantes até hoje chamam a atenção, mas não são páreo para o real chamariz deste épico: o trio principal. Não fosse por Scarlett O’Hara, Rhett Butler e Melanie Wilkes, a tarefa de acompanhar as quase quatro horas de duração do filme não seria tão recompensadora. A começar pela heroína, uma mulher completamente à frente do seu tempo. Longe de ser uma mocinha insossa, sonhadora, certinha, Scarlett sempre busca pelos seus interesses e usa dos artifícios mais escusos para alcança-los. Sua teimosia e arrogância só são vencidos pelo charme rústico de Rhett Butler, um galão também pouco convencional para a época. Dono de seu próprio nariz, apreciador de jogos e de mulheres fáceis, o mocinho de ...E O Vento Levou gosta das coisas à sua maneira e não tem problemas em usar seu dinheiro para consegui-los. O que fica ainda melhor é que essas características de ambos – e que os tornam praticamente almas gêmeas – são também carapaças que escondem seu lado bom. Scarlett aprende a se preocupar com o próximo e se mostra responsável e trabalhadora quando necessário. Da mesma forma, Rhett mostra um amor incondicional por sua filha e demonstra ter uma verdadeira queda por Scarlett (e vice-versa), mesmo que ambos não consigam admitir. 

Fechando o trio principal, ganha menção honrosa a personagem de coração mais puro de toda a história de Hollywood: Melanie Wilkes. Casada com a grande paixão da protagonista e sem nunca falar mal de qualquer pessoa, Melanie pode soar como inverossímil naquele universo. Porém, Olivia de Havilland consegue transformar uma personagem que, em um primeiro momento poderia soar totalmente desinteressante, em uma grata surpresa da produção.

Vencedor de 10 Oscar (dois deles especiais) e dono de uma das maiores bilheterias de todos os tempos, ...E o Vento Levou é um clássico que deve ser visitado (e revisitado) por qualquer cinéfilo que se preze. É verdade que a duração do filme pode assustar e que a segunda parte do longa é bem menos interessante que a primeira. No entanto, a força dos personagens e a beleza das imagens – atrelada a inesquecível música de Max Steiner – fazem com que a tarefa seja nada ingrata.

...E O Vento Levou (Gone With the Wind)
1939 – 238 minutos – Drama
Dir.: Victor Fleming
Com Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland, Leslie Howard, Hattie McDaniel
Cotação Paradoxo: 4 estrelas

quarta-feira, 20 de março de 2013

O Mágico de Oz

Over the Rainbow

Totó, acho que não estamos mais no Kansas”; “Não há lugar como o lar”; “Não preste atenção naquele homem atrás da cortina”; Estas frases memoráveis, atreladas aos números musicais inesquecíveis de (Somewhere) Over the Rainbow, We’re off to see the Wizard e Ding-Dong! The Witch is Dead fazem de O Mágico de Oz, dirigido por Victor Fleming, um clássico imortal. Voltado para as crianças, mas apreciável em qualquer idade, o longa-metragem baseado nos livros de L. Frank Baum caminha para completar seu 75º aniversário com o mesmo charme e encantamento de sua estreia, em 1939. Mas o que o preserva tão adorável em nossas memórias afetivas?

Provavelmente, culpa disso está na história, que mostra uma garotinha do sul dos Estados Unidos, Dorothy (Judy Garland), que em meio a um tornado se vê não mais no Kansas, mas em uma terra mágica onde um Espantalho (Ray Bolger) conversa como humano, mesmo não tendo um cérebro; um Leão (Bert Lahr) não possui a coragem para abater suas presas; e um Homem de Lata (Jack Haley) sonha com um coração que pulse em seu peito oco. Este quarteto tão diferente se unirá para procurar o Mágico de Oz, figura extraordinária daquelas paragens que pode conceder desejos para os desafortunados. Dorothy, acompanhada sempre do seu fiel cãozinho Totó, quer apenas voltar para a casa. Com a ajuda da bruxa boa Glinda (Billie Burke), a menina descobrirá que precisa apenas percorrer o caminho dos tijolos amarelos para chegar ao castelo do Mágico. Mas a detestável Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton) não deixará que esta tarefa seja realizada de forma tão fácil.

Produzido por Mervyn Leroy, O Mágico de Oz teve um longo caminho para sair do papel até os cinemas, em 1939. Para começar, foram cinco diretores envolvidos. Richard Thorpe chegou a gravar algumas cenas – que não entraram no filme – sendo substituído por não agradar aos engravatados da MGM. George Cukor entrou na produção, mudou alguns pontos na caracterização de Dorothy e do Espantalho, mas não ligou as câmeras, passando o trabalho para Victor Fleming, diretor creditado e quem gravou boa parte do musical. Quando convidado para comandar …E O Vento Levou (1939), Fleming abandonou a produção, que foi seguida por King Vidor (quem comandou as cenas no Kansas e a memorável canção (Somewhere) Over the Rainbow). Por fim, algumas poucas cenas foram dirigidas pelo produtor Mervyn Leroy, fechando o exagerado número de cineastas responsáveis pelo longa.

No elenco, não foi diferente. O Homem de Lata original, que seria vivido por Buddy Ebsen (conhecido posteriormente pelo seriado Barnaby Jones, 1973), teve de ser substituído por intoxicação decorrente da maquiagem. Não bastasse isso, Margaret Hamilton também teve problemas, mas com queimaduras, devido aos químicos da maquiagem e a fumaça que servia de saída e entrada para sua personagem. Até o cãozinho teve de ser substituído por algum tempo, após ter sido pisado por um extra. A frase “nenhum animal foi machucado durante as filmagens deste longa-metragem” não poderia ser usada nesta produção – ainda que não existisse na época.

O que chama a atenção em O Mágico de Oz é o apuro da produção. Mesmo que aos olhos da plateia de hoje os cenários sejam bastante artificias e os efeitos especiais um tanto ingênuos, é impressionante ver o que foi feito em um longa-metragem rodado no final dos anos 30 do século passado. A maquiagem, ainda que prejudicial à saúde dos atores, é de uma qualidade incrível, transformando intérpretes talentosos em espantalhos, homens de lata, leões e bruxas medonhas. A direção de arte é um show à parte, com cenários criados com muita atenção, nos mostrando de forma sublime o quão mágico e colorido é aquele lugar. Ajuda muito o fato de as primeiras cenas do filme apresentarem um belo sépia, marcando a diferença entre Kansas e Oz.

Judy Garland está simplesmente adorável como a jovem Dorothy, mesmo com idade avançada para o papel – a atriz tinha 16 anos quando gravou sua participação, interpretando uma personagem infantil. Sua doçura no olhar e em suas palavras facilmente convenceram o público que aquela poderia ser a Dorothy perfeita, ainda mais com uma performance tão notável em (Somewhere) Over the Rainbow logo no início do filme. Para que O Mágico de Oz conquiste o espectador, é necessário que ele acredite na jornada dos personagens e Garland faz um trabalho magnífico como a pequena Dorothy à frente do elenco, que conta ainda com ótimas atuações – com destaque para o afetado Leão interpretado por Bert Lahr.

Divulgando uma mensagem de ternura e de bondade, lembrando a todos que não há lugar como o nosso lar, bem como a ideia de que, às vezes, nossos desejos estão mais perto do que imaginávamos (não raro, dentro de nós mesmos), O Mágico de Oz é uma daquelas produções que nunca perderão o interesse do público, conquistando espectadores de todas as idades pela sua ingenuidade e carisma ao contar uma história de apelo universal.

O Mágico de Oz (The Wizard of Oz)*
1939 - 101 minutos - Musical
Dir.: Victor Fleming
Com Judy Garland, Frank Morgan, Ray Bolger, Bert Lahr, Jack Haley, Billie Burke, Margaret Hamilton
Cotação Paradoxo: 5 estrelas

* Crítica publicada originalmente em Papo de Cinema.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Marujo Intrépido

Little Fish

Lançado em 1937, Marujo Intrépido pode não ser tão badalado nos dias de hoje como O Mágico de Oz ou E O Vento Levou, trabalhos reverenciados como clássicos e dirigidos por Victor Fleming em 1939. No entanto, o que falta em fama a Marujo Intrépido, sobra em emoção. Com uma belíssima atuação de Spencer Tracy (vencedor do Oscar de Melhor Ator em 1938) e uma comovente performance do ator mirim Freddie Bartholomew, o longa-metragem apresenta uma incrível transformação e uma história de amizade forjada em pleno mar bravio.

Com roteiro de John Lee Mahin, Marc Connelly e Dale Van Every, baseado no romance de Rudyard Kipling, Marujo Intrépido nos apresenta ao mimado e arrogante Harvey (Bartholomew), um menino de família rica que se aproveita de sua posição social para cobrar favores e humilhar seus colegas de aula. Quando uma de suas tramoias não dá certo e ele é pego pela diretoria da instituição em que estuda, seu pai, o magnata Frank Cheyne (Melvyn Douglas), percebe que é preciso dar mais atenção ao garoto. Os dois partem, então, para um cruzeiro, na tentativa de criar um laço mais forte entre pai e filho. No entanto, em meio a mais uma traquinagem de Harvey, o menino acaba caindo do navio onde estava, sendo resgatado pelo pescador Manuel (Tracy). A bordo do barco pesqueiro We’re Here, sem qualquer chance de contatar seu pai para busca-lo, o mimado riquinho precisará trabalhar para garantir seu lugar na embarcação. Às rusgas de início, Harvey começa a aprender o real significado da responsabilidade e da amizade.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme, Marujo Intrépido tem dois momentos distintos. O primeiro apresenta o menino protagonista e é o menos interessante de todo o longa-metragem. Ainda que seja necessário destacar as atitudes repreensíveis de Harvey, este primeiro ato demora muito para deslanchar – o que era normal no cinema daquela época, quando não tínhamos que saber do que o filme se tratava nos primeiros dez minutos. De qualquer forma, acompanhar o mimado Harvey e suas tramoias por meia hora é bastante desagradável – o que talvez seja explicável pela ótima atuação de Freddie Bartholomew, que precisa ser um tanto asqueroso para convencer. A história ganha em brilho quando Spencer Tracy aparece com seu cativante Manuel. Dono de um humor contagiante, o pescador serve como um padrinho para Harvey dentro do barco. Recebido com pouco entusiasmo pelos demais tripulantes do We’re Here, visto que não é de bom agouro carregar um visitante em barco pesqueiro, Manuel precisa ensinar a Harvey como trabalhar. E, assim, pouco a pouco, começa a surgir uma forte amizade entre aquelas duas pessoas tão diferentes.

É notável que Harvey nunca teve uma figura paterna presente, que lhe impusesse limites ou aplicasse castigos. Manuel acaba servindo como esse pai postiço, já que não tem nenhum pudor em mandar, xingar ou disciplinar aquela criança para que ela faça o que é necessário. Em um momento ímpar do longa-metragem, Manuel e Harvey precisam vencer uma aposta tola que o pescador fez com outro companheiro. O garoto não tem dúvidas e arranja uma forma desonesta para que eles vençam a disputa. Ao saber disso, Manuel não só paga a aposta para seu parceiro de barco como se mostra completamente insatisfeito com as atitudes de Harvey, cortando relações – de alguma forma, passando uma mensagem importante para aquele desorientado marujo.

O desfecho da história, ainda que emocionante, surge de forma abrupta, como se os roteiristas (ou o autor do romance) não conseguissem criar nada melhor para eliminar um dos personagens da trama. De qualquer forma, Marujo Intrépido é mais uma obra inesquecível de Victor Fleming, filmado em um belo preto e branco e convencendo o espectador que aqueles pescadores estão em pleno mar. Mais uma das artimanhas mágicas do cinema, visto que os atores nunca saíram do tanque construído no estúdio.

Marujo Intrépido (Captains Courageous)
1937 – Drama – 115 minutos
Dir.: Victor Fleming
Com Freddie Bartholomew, Spencer Tracy, Lionel Barrymore, Melvyn Douglas
Cotação Paradoxo: 4 estrelas

sexta-feira, 15 de março de 2013

Oz - Mágico e Poderoso

Not in Kansas

Vendido como um novo Alice no País das Maravilhas, Oz – Mágico e Poderoso consegue ser muito mais interessante do que a tentativa de Tim Burton em recontar as aventuras da personagem título atrás do coelho branco. Ainda que guarde algumas semelhanças com aquele longa-metragem (pelos cenários criados por computador, pela necessidade de impressionar o espectador com cores e formas diversas e por ser uma produção Disney) este novo trabalho de Sam Raimi consegue se desvencilhar mais facilmente do seu original, no caso O Mágico de Oz, de 1939, dirigido por Victor Fleming, o tornando um programa muito mais divertido.

Na trama, assinada por Mitchell Kapner e David Lindsay-Abaire, vemos o que acontece em Oz muito antes de Dorothy ser levada por um tornado e bater os calcanhares de seus sapatinhos vermelhos. Conhecemos, logo de início, o mágico fajuto Oz (James Franco) e suas tramoias para conquistar mulheres. Durante confusão com uma de suas pretendentes em meio ao circo em que trabalha, o mago embarca em um balão e foge do local, sendo pego por uma tempestade e acabando num lugar espetacular coincidentemente chamado Oz. Lá, ele descobre que uma profecia aponta a chegada de um mágico poderoso naquelas paragens, uma pessoa que governará a todos dali. Percebendo uma oportunidade, Oz resolve viver aquele papel, conquistando primeiramente a afeição da bruxa Theodora (Mila Kunis), irmã da pouco confiável Evanora (Rachel Weisz), feiticeiras que vivem às rusgas com a bela Glinda (Michelle Williams). Mas será que Oz conseguirá enganar a todos por muito tempo?

Quando as primeiras notícias sobre Oz – Mágico e Poderoso começaram a circular pela web, a empolgação foi grande. Reencontrar o onírico local onde Dorothy e seu cãozinho Totó foram parar depois de uma grande tempestade em O Mágico de Oz parecia uma boa ideia. A tecnologia que temos em mãos atualmente poderia criar uma Oz impressionante. Sem contar com o elenco que estava sendo montado – com destaque para Robert Downey Jr. como o mago do título. Com seu estilo de atuação inteligente e sempre bem humorada, o ator parecia uma escolha perfeita para viver o mago picareta. O tempo passou, a agenda de Downey Jr. ficou espremida entre Sherlock Holmes e os filmes da Marvel, fazendo com que o papel tivesse de ficar com outra pessoa – neste caso, James Franco. Pequena frustração, que logo é esquecida assim que o longa-metragem engrena. Ainda que Franco não tenha o carisma de Downey Jr., seu approach para com o personagem é bastante acertado, exagerando onde é necessário e apresentando uma certa vulnerabilidade que conquista o espectador. Ainda que seja irresponsável de início, com seus relacionamentos e com sua cobiça, Oz descobre em si uma figura mais honesta e poderosa do que imaginava ao entrar em contato com as figuras daquele local riquíssimo. Dentre estes amigos, destaque para o hilário macaco Finley (Zach Braff).

O trio feminino também merece louros. Michelle Williams e Mila Kunis ganham personagens que foram icônicas no filme original e parecem à vontade em seus papéis. A primeira não tem grandes desafios, mantendo-se sorridente e bela durante toda a projeção. Já Kunis passa por um arco mais interessante, dando sentido àquela frase: “o inferno não conhece fúria como a de uma mulher rejeitada”. Enquanto isso, Rachel Weisz tem maior espaço para brincar com sua personagem, já que dentro do original sua bruxa era apenas mencionada.

Em O Mágico de Oz, Dorothy vivia em um Kansas sépia até ser transportada para um colorido Oz depois de uma tempestade. Sam Raimi reverencia este passado trazendo para aquela cidade do Texas um entristecido preto e branco, filmando-a em 4x3, mesma proporção de imagem do longa-metragem original. Quando o mágico chega a Oz, não só o lugar é colorido como a imagem aparece em um belo wide, expandindo nosso campo de visão. Uma pena que o cineasta fique preso demais aos efeitos especiais, criando uma Oz intensa, mas bastante artificial. O 3D não ajuda muito, até porque acaba escurecendo algumas passagens que talvez fossem mais interessantes vistas sem os óculos.

Se neste quesito Raimi não é muito feliz, ao menos o cineasta acaba acertando ao tentar se desvencilhar o máximo possível da história do original. Notem que ele faz diversas homenagens ao longa de Victor Fleming, mas consegue criar uma história que seja totalmente sua. As peças estão ali para serem encaixadas – e existe um espaço enorme para continuações que se situem entre este Oz e o clássico de 1939. Tanto que o sucesso deste primeiro prequel parece ter dado o pontapé inicial para outros filmes. Sam Raimi já afirmou que não pretende retornar à Oz, o que é uma lástima, visto que o seu trabalho é uma das razões pelas quais o longa-metragem tenha saído tão divertido. Oz – Mágico e Poderoso desafia as probabilidades e acaba sendo uma grata surpresa.

Oz – Mágico e Poderoso (Oz – Great and Powerful)
2013 – Aventura – 130 minutos
Dir.: Sam Raimi
Com James Franco, Mila Kunis, Rachel Weisz, Michelle Williams, Zach Braff, Bill Cobbs
Cotação Paradoxo: Vale 80% do ingresso

quarta-feira, 13 de março de 2013

Um Plano Simples

Cobiça

O que você faria caso encontrasse uma quantia absurda de dinheiro e não soubesse a quem a pertence? Ficaria com tudo ou entregaria o montante às autoridades? Em Um Plano Simples, Hank (Bill Paxton) cogitou a segunda alternativa quando esbarrou com milhões de dólares dentro de um avião, caído e perdido em meio à neve, com seu piloto morto e não identificável. Isso até seu irmão Jacob (Billy Bob Thornton) e o seu respectivo parceiro de pileques Lou (Brent Briscoe), dupla que fez a descoberta junto de Hank, despertarem a cobiça daquele homem. Sabendo que a grande quantia chamaria a atenção caso fosse esbanjada, Hank resolve reter o dinheiro e esperar a poeira baixar, só depois o dividindo em três partes iguais. Um plano bastante simples, como pressupõe o título do filme, mas é apenas o começo de um suspense de erros, desconfianças e muita falta de sorte.

Dirigido por Sam Raimi e roteirizado por Scott B. Smith, baseado em sua própria novela, Um Plano Simples conta com uma atmosfera de suspense muito bem trabalhada pelo cineasta. Em uma história na qual a cobiça é um dos principais motores dos personagens, qualquer coisa pode acontecer – e acontece. Fargo, de Ethan e Joel Coen, foi acertadamente rotulada como uma comédia de erros assim que foi lançada. Raimi, amigo de longa data dos irmãos cineastas, fez sua própria trama na neve, mas com ares de mistério – um suspense de erros. O trio principal toma decisões bastante duvidosas e as consequências de seus atos acabam ricocheteando contra toda a vez. Quando entendemos a situação que se desenrolará na trama, fica difícil não sentir pena daqueles três pobres diabos que acabam, de alguma forma, ganhando na loteria, mas que são pouco inteligentes para tomarem decisões corretas. Hank pensa ser o mais esperto, o mais safo, mas não consegue pensar em medidas que ajudem o trio a ficar com o dinheiro. Isso, claro, antes de cogitar ficar com todo o montante para si.

Ainda que seja uma trama na qual o espectador fique se perguntando o que será feito com aqueles milhões, Raimi e Smith não esquecem de criar um alicerce forte para sustentar este plot. Alicerce este que atende pelos nomes Hank e Jacob. A dupla de protagonistas segura o interesse do público até o fim, muito por causa da relação conturbada entre os dois. Jacob parece admirar – e até invejar – a vida que Hank leva com sua esposa, Sarah (Bridget Fonda). Nunca alvo de interesse feminino, Jacob acabou virando um pária do vilarejo, um sujeito que bebe demais e pensa de menos. Este complexo de vira-lata daquele homem o fez se aproximar de Lou, outra figura triste, que passa seus dias bebendo nos bares da cidade. Hank, por outro lado, é um sujeito responsável, correto, casado e com um filho às vésperas de nascer. Quando este trio se vê com uma colossal soma em dinheiro, Hank prontamente se oferece a guardar o dinheiro, por não confiar na ganância de Lou e na inteligência do irmão. Esta falta de confiança acabará traindo aquele trio.

Com duas indicações ao Oscar (Ator Coadjuvante para Bob Thornton e Roteiro Adaptado), Um Plano Simples é um dos bons filmes da carreira de Sam Raimi, mais sóbrio e sério que o habitual. O desenrolar da história é sempre interessante, apesar dos 120 minutos de duração parecerem um tanto inchados lá pelo meio do segundo ato. Nada que atrapalhe o final irônico e bem costurado, com altas doses de suspense, sangue e neve.

Um Plano Simples (A Simple Plan)
1998 – Suspense – 121 minutos
Dir.: Sam Raimi
Com Bill Paxton, Bridget Fonda, Billy Bob Thornton, Brent Briscoe, Chelcie Ross, Gary Cole
Cotação Paradoxo: 4 Estrelas e 1/2