Funileiro, Alfaiate, Soldado
Ele foi o problemático baixista do Sex Pistols Sid Vicious, o suposto assassino de John Kennedy, Lee Harvey Oswald, o trapaceiro perdido no espaço Dr. Smith, o confiável Comissário Gordon e o bruxo gente boa Syrius Black. Gary Oldman fez de tudo um pouco no cinema. Já foi rastafári e até anão. Apesar disso, nunca havia conseguido uma indicação ao Oscar e, em outros prêmios, não venceu nenhuma categoria em que tenha concorrido como ator – Oldman é diretor e roteirista também, já recebendo louros pelo seu trabalho como tal. A situação mudou com o lançamento de O Espião que Sabia Demais, adaptado da obra do mestre John Le Carré, dirigido por Tomas Alfredson (de Deixe Ela Entrar). No filme, Oldman tem a oportunidade de mostrar seu talento de forma bastante sutil, construindo um personagem que praticamente vive nas sombras, uma exigência de seu trabalho secreto. Calado, compenetrado, totalmente low profile, o protagonista de O Espião que Sabia Demais, George Smiley, é o anti-James Bond. Talvez, por isso, tenhamos uma resposta de público tão dividida em relação ao longa-metragem. Se alguém está esperando uma história de espionagem cheia de ação e tiroteios, este definitivamente não é o seu filme. O Espião que Sabia Demais é um jogo de xadrez. E muito bem executado.
Falando desta forma, o roteiro de O Espião que Sabia Demais não parece nada hermético ou confuso. Mas isso é só a ponta do iceberg. Existem outros personagens inclusos na trama que podem embaralhar a cabeça do espectador menos atento. Como, por exemplo, Ricky Tarr (Tom Hardy), agente que desaparece depois de uma missão, é dado como desertor, até que surge com informações sobre o traidor; Peter Guillam (Benedict Cumberbatch), braço direito de Smiley na investigação, figura que se entrega totalmente à sua missão; Irina (Svetlana Khodchenkova), mulher de um agente russo que acaba virando a casaca e ajudando Ricky em seu trabalho. A palavra chave de O Espião que Sabia Demais é esta: atenção. Como são muitos personagens, muita história e pouco tempo para ser contada, o diretor Tomas Alfredson despeja informação no público, que deve estar devidamente ligado no filme para captar todas as nuances e reviravoltas da trama. A história não é de difícil compreensão. Acompanha-la é que requer os olhos vidrados do espectador e sua total atenção – do contrário, uma pequena informação perdida pode se transformar em uma bola de neve no desfecho.
John Le Carré foi um espião de verdade e, por isso, sabe muito bem como funcionam as agências de Inteligência do Reino Unido. Por isso, O Espião que Sabia Demais soa tão real. O filme nos apresenta passo a passo a investigação de Smiley à procura do traidor, lembrando um pouco, em andamento e em revelação do processo, o excelente Todos os Homens do Presidente, que mostrava todos os meandros do trabalho de jornalismo realizado pela dupla que desmascarou o ex-presidente Nixon. Diria mais. Se eu não conhecesse os atores, eu acreditaria piamente que o longa-metragem foi realizado nos anos 70. Toda a atmosfera daquela década está impressa no filme. As cores utilizadas, a direção de arte impecável, o ritmo da trama. Tudo ali soa setentista. Este capricho na recriação daquela época coloca o espectador em meio a Guerra Fria em pleno século XXI.
Claro que, não fosse este elenco, o resultado não seria o mesmo. E que elenco. Mark Strong, Toby Jones, Tom Hardy, John Hurt, Colin Firth e Gary Oldman formam um dreamteam britânico só visto com este calibre, talvez, nas aventuras de Harry Potter. Uns com mais tempo, outros com menos para mostrar o que sabem fazer, é verdade. Destaque para Mark Strong, que tem se tornado presença constante ultimamente nas mais variadas produções – de Sherlock Holmes a Kick Ass – e, desta vez, deixa os seus recorrentes vilões de lado para interpretar um agente que se vê em meio a uma sinuca de bico quando é traído por um colega seu. O arco do personagem é o que mais difere dos demais, sendo possível observar muito da angústia de ter de abandonar seu trabalho após sua inglória missão ter fracassado. A maquiagem e figurino de Strong são os que mais nos remetem aos anos 70, outro motivo para destacar o ator.
Mas o filme é de Gary Oldman. Sem precisar dizer uma palavra nos primeiros quinze minutos de filme, o ator constrói uma figura muito sóbria, mas que carrega um peso muito grande dentro de si. Ele sabe que sua ex-esposa o traiu com um colega de trabalho, sabe que existe um espião duplo dentro da agência e, além de tudo, acaba de perder um bom amigo. Confiança é uma palavra de ordem para Smiley e o filme todo gira em torno dessa busca por pessoas com quem o agente possa contar. Por sorte, o velho espião encontra em Peter, um jovem e inteligente rapaz, uma figura de confiança em tempos tão nebulosos.
O Espião que Sabia Demais é um tipo de filme a ser degustado. Deve ser acompanhado como a uma partida de xadrez entre dois especialistas no jogo. As reviravoltas do roteiro não são muito surpreendentes, é verdade. Mas a graça não está no xeque-mate e sim nos movimentos que fizeram o jogador chegar ao final em vantagem. Um filmaço.
Maratona Oscar: O Espião que Sabia Demais foi indicado a três Oscar: Melhor Ator (Gary Oldman), Melhor Roteiro Adaptado (Peter Straughan e Bridget O’Connor) e Melhor Trilha Sonora (Alberto Iglesias). Seria muito bacana ver Gary Oldman saindo da festa da Academia com uma estatueta em mãos. Mas acredito que não será desta vez. Clooney e Pitt são os favoritos – com Jean Dujardin correndo por fora. Nas demais categorias, as chances são ainda menores.
O Espião que Sabia Demais (Tinker Taylor Soldier Spy)
Dir.: Tomas Alfredson
Com Gary Oldman, Mark Strong, Toby Jones, Tom Hardy, John Hurt, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Ciaran Hinds
Cotação Paradoxo: Vale 95% do ingresso
Confira abaixo o trailer de O Espião que Sabia Demais:











