Em 1966, quando dirigiu O Canhoneiro de Yang-Tsé, Robert Wise já havia ganhado por duas
vezes o Oscar de Melhor Filme e Diretor – com Amor, Sublime Amor e A Noviça
Rebelde – além de ter assinado produções memoráveis como Marcado pela Sarjeta e O Dia em que a Terra Parou. Apesar de
tantos louros para estas demais produções, o cineasta confessou certa vez que o
título que mais o orgulhava em sua filmografia era O Canhoneiro de Yang-Tsé, indicado a oito Oscar, mas sem receber
estatueta alguma. O porquê de sua predileção foi explicada pelo fato de ter
sido dificílimo contar aquela história. E o resultado final foi tão
recompensador que Wise dava festas anuais para os membros daquela produção –
talvez se desculpando pelo inferno durante as filmagens. Com uma trama ambientada
boa parte em um encouraçado, com gravações feitas em locação e demorando meses
para encerrar a fotografia principal (quando os planos originais eram apenas algumas semanas), o longa-metragem que deu a única
indicação ao Oscar para Steve McQueen foi traumática para o ator, que ficou de
molho durante dois anos até voltar à frente das câmeras. Ao menos, todo o
trabalho valeu a pena.
Na trama, baseada em obra de Richard McKenna e assinada
por Robert Anderson, o engenheiro Jake Holman (McQueen) é transferido para o
U.S.S. San Pablo em plena revolução chinesa e logo começa a perceber que a
tripulação de marinheiros do encouraçado não é nada amistosa. Sem precisar
trabalhar arduamente por causa da mão de obra barata dos chineses, a equipe vê
em Holman uma figura perigosa, visto que ele demanda ficar perto dos motores do
navio e fazer sua função, não deixando que outros o façam por ele. Seu
comportamento arredio logo chama a atenção do capitão Collins (Richard Crenna),
que não permite que ele mude o status quo dentro do Sand Pebbles (como os
tripulantes chamam o San Pablo). Fazendo amizade apenas com um companheiro da
marinha, o simpático Frenchy (Richard Attenborough), Holman enfrentará diversos
problemas enquanto navega pelas águas agitadas da China revolucionária.
Filmado em Taiwan e Hong Kong, O Canhoneiro de Yang-Tsé ficou notório pelas incríveis tomadas capturadas
in loco e pela atmosfera de tensão que Robert Wise consegue imprimir em boa
parte da película. O clima de animosidade dentro do San Pablo é palpável e
algumas fortes sequências (como o terrível destino do ajudante chinês de Holman)
impressionam pela crueza – para uma produção da década de 60, ao menos. E se
Steve McQueen nunca chegou a ser um ator multifacetado, ao menos consegue
convencer como poucos na figura do rude, porém íntegro, Jake Holman. Sua amizade
com Frenchy, bem como o senso de responsabilidade para com o trabalho, fazem do
personagem uma figura interessante – visto que parece desconfortável com
qualquer outro detalhe de suas funções, seja acatar ordens ou viver em
comunidade.
O problema de O
Canhoneiro de Yang-Tsé, além de sua quilométrica metragem, é a falta de uma
linha mestra a ser seguida. Robert Wise parece atirar para todos os lados, sem
conseguir manter a história nos trilhos. Existe tanta coisa acontecendo no
filme que, por vezes, o próprio protagonista é esquecido. Mesmo que seja
tocante a subtrama entre Frenchy e a indefesa Maily (Emmanuelle Arsan), é
realmente necessário este desvio da trama principal? Parece-me que uma narrativa
mais econômica faria bem para este drama de guerra.
Apresentando uma novata e bela Candice Bergen, fazendo um
par romântico um tanto esquisito com Steve McQueen, O Canhoneiro de Yang-Tsé acaba sendo uma produção irregular, porém
válida quando pensamos nos talentos envolvidos. Ainda que não tenha levado
prêmio algum da Academia naquele ano (foi indicado inclusive a Melhor Filme),
Robert Wise acabou levando uma estatueta especial, o Irving G. Thalberg Award,
em 1967, pelo conjunto de sua obra. Mal os votantes do Oscar sabiam que o
veterano cineasta estava longe de se aposentar e ainda faria muitos outros
filmes interessantes no futuro. Mas isso é assunto para outra crítica.
O Canhoneiro de
Yang-tsé (The Sand Pebbles)
1966 – 182 minutos – Drama
Dir.: Robert
Wise
Com Steve McQueen, Richard Attenborough, Candice
Bergen, Richard Crenna, Mako, Emmanuelle Arsan, Simon Oakland
Cotação Paradoxo: 3 estrelas e ½











